Sítios ecológicos de Goiás realizam pesquisas de longa duração para avaliar os biomas Cerrado e Mata Atlântica
CNPq e Fapeg devem financiar cerca de R$2,2 milhões ao longo dos próximos quatro anos para a realização de pesquisas ecológicas de longa duração em séries temporais para entender os processos e fatores responsáveis pelas mudanças na biodiversidade
Goiás teve três projetos de grandes sítios ecológicos aprovados nas chamadas públicas do CNPq (nº 23/2024) e de coparticipação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) (complementar nº 22/2024) para o apoio a projetos de pesquisa científica, tecnológica e de inovação com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração (Peld). Mais de R$ 1,5 milhão serão investidos pelo CNPq e cerca de R$ 700 mil pela Fapeg nos próximos quatro anos. Ao término do período, os projetos passarão por avaliação e poderão concorrer a uma nova chamada, e assim, os sítios têm a garantia de investimentos que podem durar mais do que o tempo de quatro anos de uma chamada.
A Fapeg comemora essa parceria com o CNPq neste 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, para ilustrar as diversas ações, convênios, acordos, programas, projetos e editais lançados pela Fundação com foco na temática, pois todos compartilhamos os mesmos recursos de biodiversidade que precisam ser gerenciados com o compromisso de responsabilidades compartilhadas para garantir a sobrevivência geral do planeta.
O Peld é uma iniciativa do CNPq que financia uma rede de sítios de pesquisas distribuídos nos diferentes biomas brasileiros, para o desenvolvimento de projetos que abrangem estudos sobre efeitos de diversificadas questões, como por exemplo: mudanças climáticas; perda, fragmentação e degradação de ambientes naturais; destruição de habitats, invasão, extinção ou surgimento de espécies com ações de conservação ou restauração de ecossistemas nativos, tendo em vista a sustentabilidade ambiental. As longas séries de dados sobre os ecossistemas coletadas em um só lugar servem para análises sobre os impactos das ações do homem ao meio ambiente que podem possibilitar respostas urgentes em caso de desastres ambientais. Os sítios agregam diversos pesquisadores e assim, integram o conhecimento e, com o domínio das informações, e constatados os problemas, a sociedade é inserida no processo por meio de ações educativas e de conscientização e tomada de ações estratégicas para a implementação de políticas públicas.
Sítio EBMN
O projeto PELD EBMN (Efeitos da Composição e Configuração das Paisagens sobre a Biodiversidade: uma Análise Multinível) está em seu segundo ciclo, iniciado em 2021, e é coordenado pelo professor Alessandro Ribeiro de Morais, do IF Goiano. A pesquisa ocorre em uma região predominantemente agrícola e pecuária no sudoeste de Goiás, abrangendo os municípios de Rio Verde, Montividiu, Santa Helena de Goiás, Jataí e Aparecida do Rio Doce.
Neste segundo ciclo contará com financiamento total de R$ 766.020,00, sendo R$ 518.020,80 do CNPq e R$ R$ 248 mil da Fapeg, para o desenvolvimento de oito subprojetos. O projeto é multidisciplinar e agrega professores doutores que atuam em instituições de ensino e pesquisa do IF Goiano, Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Estadual de Goiás (UEG) e Universidade Federal de Jataí (UFJ) e seus alunos de pós-graduação (mestrado e doutorado), além da pesquisadora dra. Dra. Kimberly With, da Kansas State University.
O professor Alessandro explica que, desde 2021, há um monitoramento sistemático da fauna e flora em áreas nativas que sofrem forte influência de atividades de agricultura e pecuária. Nesse contexto, segundo ele, criar séries temporais relacionadas à ocorrência de espécies é importante para entender os impactos das ações antrópicas e, consequentemente, propor medidas para mitigar tais impactos. “Considerando que estamos vivenciando um período de mudança climática, o PELD EBMN monitora algumas variáveis climáticas no interior de remanescentes florestais para avaliar o quanto o clima dentro das florestas difere daquele em áreas alteradas (p.ex. agricultura e pastagem). Dessa forma, podemos prever o quanto a perda e a fragmentação podem alterar o clima em uma determinada área”, explica o professor.
O monitoramento da fauna realizado pelo PELD EBMN tem possibilitado o registro de diversas espécies ameaçadas de extinção. “Até o momento, registramos a ocorrência de anta, queixadas, lobo-guará, tamanduá-bandeira e de espécies de peixes da família Rivulidae. Esses peixes são popularmente conhecidos como peixes das nuvens e muitos são ameaçadas de extinção”.
Segundo o professor, as atividades antrópicas, ao longo das últimas décadas, provocaram perda e fragmentação de ambientes naturais e na contaminação de água e solo por defensivos agrícolas. É nesse cenário que o PELD EBMN se propõe a monitorar a biodiversidade, com o objetivo geral de saber como ela responde a tais alterações antrópicas. Para isto, as principais propostas do PELD EBMN são:
Investigar a dinâmica das paisagens ao longo do tempo (últimos 40 anos); monitorar a fauna e a flora em ambientes antropizados; investigar a quantidade de danos genéticos em organismos situados em ambientes que estão sob pressão da agricultura; investigar se a redução e/ou isolamento das áreas de floresta podem afetar a diversidade genética de organismos terrestres; avaliar o impacto do uso de agrotóxicos na saúde do trabalhador rural; e monitorar o clima no interior de remanescentes florestais.
Sítio CEMA
Com sede na Universidade Federal de Jataí (UFJ), o Peld-CEMA é coordenado pelo professor Frederico Augusto Guimaraes Guilherme. Está em funcionamento desde 2013, entrando no quarto ciclo. “O nosso PELD CEMA é em referência à transição Cerrado-Mata Atlântica, visto que, mesmo inseridos nos domínios do Cerrado, estamos próximos à transição com as florestas interioranas da Mata Atlântica. “Nossos estudos abrangem tanto ecossistemas localizados em Unidades de Conservação como em propriedades rurais, ao longo do sudoeste goiano, mas também temos pesquisas na região sul e central do estado, além de regiões limítrofes, nos estados de MT e MS”, diz o pesquisador.
O projeto receberá financiamento do CNPq em torno de R$ 530 mil e da Fapeg, cerca de R$ 200 mil. Os estudos seguirão promovendo o levantamento e monitoramento da flora e fauna nas regiões centro-sul e sudoeste goiano, além de áreas circunvizinhas. “Estudamos tanto fisionomias savânicas como remanescentes florestais, procurando abordar os efeitos crescentes das ações do homem nos ambientes naturais”.
A região de atuação do Peld CEMA é dominada pelo agronegócio e, por isso, normalmente as áreas estudadas são fragmentadas, o que possibilita avaliar e monitorar a biota em graus distintos de distúrbios, destaca o pesquisador. Segundo ele, os estudos de longo prazo têm viabilizado vários novos registros de plantas e animais na região, e tornado possível a descoberta de espécies novas, bem como está sendo possível aprofundar o conhecimento sobre a ecologia e distribuição geográfica de várias delas. “Também temos um eixo de estudos sobre métodos, técnicas e monitoramento de áreas degradadas, e que hoje se encontram em processo de restauração ecológica. Abordagens socioambientais com população humana também são feitas, analisando a percepção ambiental e a etnoecologia no entorno dos sítios em áreas protegidas ou em processo de implementação, promovendo assim, a aproximação entre a comunidade científica e dos gestores públicos com os moradores locais.
Essas questões aliadas à modelagem ecológica dos dados dos sítios e espécies raras e/ou ameaçadas vão suprir lacunas no conhecimento da biodiversidade regional e apoiar a investigação de temas de pesquisa para subsidiar a gestão ambiental, incluindo tomada de decisão e formulação de políticas públicas nos nossos sítios. “Temos parcelas permanentes para monitoramento de vegetação com mais de 10 anos. Essas podem auxiliar no entendimento de como as comunidades de modo geral e de algumas espécies de plantas se comportam (em termos de crescimento, padrões de mortalidade e recrutamento – ou seja, entrada e saída de organismos no ecossistema ao longo do tempo) em função de fatores de degradação do ambiente como fragmentação, queimadas e até mudanças climáticas.”
Pesquisas com monitoramento de vegetação do CEMA tem dados inseridos em uma plataforma mundial de parcelas permanentes e publicação de artigos científicos e pesquisas em larga escala. Acesse aqui: https://forestplots.net/pt – Medindo o pulso das florestas tropicais ao longo do planeta.
A equipe é atualmente composta por 13 professores e pesquisadores (distribuídos em mais de quatro instiuições de ensino/pesquisa; dois técnicos, e em torno de 15 pós graduandos (pós-doutorandos, doutorandos e mestrandos), além de aproximadamente 10 alunos de graduação, dos cursos de Biologia e Engenharia Floresta, além de parcerias internacionais com pesquisadores do Rio Unido, Universidade de Leeds.
Sítio LAND
Pela primeira vez o sítio LAND – Dinâmica de paisagens agrícolas e impactos sobre a biodiversidade – Agricultural landscape dynamics and impacts on biodiversity – foi inserido no programa do CNPq. Aprovado nesta última chamada pública, o projeto é ligado à Universidade Federal de Goiás e tem sob coordenação a professora Rosane Garcia Collevatti. O investimento por parte do CNPq deverá ser de R$ 546.960,00 e da Fapeg, cerca de R$ 300 mil.
Segundo a pesquisadora, o sítio iniciou em 2016 e foi o primeiro a propor estudo de longa duração em paisagem agrícola para entender como a biodiversidade responde a mudanças na paisagem devido à agricultura intensiva. Atualmente a meta é estudar e monitorar, na região Centro-Leste do Estado de Goiás, como a dinâmica espaço-temporal de paisagens agrícolas afeta a biodiversidade em diferentes níveis: a composição das comunidades, as interações entre espécies, as funções e os serviços ecossistêmicos. “Propomos também integrar dados climáticos com dados em escala de paisagem para entender como a interação destes fatores influenciam a biodiversidade em paisagens agrícolas”.
Para Rosane Collevatti, as pesquisas de longa duração permitem entender os processos e fatores responsáveis pelas mudanças na biodiversidade. “Como paisagens dominadas por agricultura intensiva são muito dinâmicas, algumas modificações na biodiversidade podem ser muito rápidas, mas muitas mudanças são processos que podem ocorrer ao longo do tempo. Somente um projeto de longa duração permite compreender melhor estas diferenças e estas mudanças”, explica.
Os pesquisadores já descobriram que a perda de habitat e fragmentação devido ao avanço da agricultura intensiva na região diminuíram a riqueza de espécies de vários grupos taxonômicos como abelhas Euglossini, aves, roedores, grandes mamíferos, plantas, anfíbios e répteis. “No projeto também registramos algumas novas ocorrências de espécies para o estado de Goiás, principalmente de pequenos mamíferos e de parasitos Helmintos. Além das atividades de pesquisa, temos atividades e produção de material para divulgação científica, educação e extensão”, destaca a pesquisadora. Nesta Semana do Meio Ambiente será realizado um ciclo de palestras e divulgação dos resultados do PELD para a população sob influência do projeto, além de oficinas de biodiversidade para escolas com apoio da Floresta Nacional de Silvânia (Flona de Silvânia), (ICMBio) e a prefeitura de Silvânia.
Sítio EMAS
O sítio Peld EMAS (Parque Nacional das Emas) foi criado em 2010, em edital conjunto CNPq/Confap(Fap) para o desenvolvimento de pesquisas no Parque e entorno, que inclui os municípios de Mineiros e Chapadão do Céu. O sítio foi recomendado, mas ficou fora do limite orçamentário do CNPq neste último edital.
Ao longo destes quase 15 anos de duração foram mais de 30 artigos científicos publicados, nas mais diversas revistas científicas, com temas que vão desde a descrição de novas espécies, como uma espécie de escorpião conhecida, até o momento, somente para o Parque Nacional das Emas (Bothriurus goiano), até pesquisas ecológicas de caráter experimental (como experimentos de remoção de chuva) e do efeito do fogo. Atualmente é coordenado pelo professor Fausto Nomura.
Série histórica
“Recentemente, publicamos um artigo com uma série de 10 anos de coletas para anuros, aves e mariposas, mostrando o efeito de incêndios de grandes proporções para estes grupos. De forma inédita, apontamos que as aves, apesar de sua grande mobilidade, são o grupo mais vulnerável a incêndios antrópicos, tendo sua diversidade reduzida nos anos subsequentes a estes incêndios. Além disto, estes efeitos parecem ser persistentes no tempo, levando muito tempo para que as comunidades de aves se recuperem após os incêndios”, ressalta o professor, acrescentando que “programas ecológicos de longa duração podem trazer respostas para eventos que persistem no tempo, como o efeito de grandes incêndios em áreas nativas, por exemplo. Além dos efeitos imediatos de distúrbios deste tipo, ainda se sabe muito pouco sobre suas consequências no tempo. Como pudemos observar em nossa série temporal, alguns efeitos são pouco intuitivos, como aves sendo mais vulnerável que anfíbios e mariposas aos incêndios de grandes proporções. Outras pesquisas que desenvolvemos, como o efeito das mudanças climáticas sobre a vegetação nativa, dependem destas séries temporais para podermos identificar com mais confiança quais serão as consequências destas mudanças para a biodiversidade brasileira”.
Peld EBMN



Peld CEMA



Peld LAND












