Primeiro laboratório NB3 de Goiás amplia capacidade de resposta a surtos e pandemias
Fapeg investiu R$ 3,9 milhões para a instalação do primeiro laboratório com ambiente controlado de nível de biossegurança 3 do Estado. Pesquisadores poderão trabalhar com agentes de classe três: vírus, bactérias e fungos altamente infecciosos, para desenvolver estudos inovadores que proporcionem respostas rápidas e eficazes a surtos, epidemias e pandemias
Goiás já conta com o primeiro Laboratório Multiusuário de Nível de Biossegurança 3 – (CMBiotecs/IPTSP/UFG) do Estado, o que representa a conquista de uma estrutura de alta complexidade capaz de proporcionar e impulsionar pesquisas, estudos e inovações na fronteira do conhecimento. Nele poderão ser desenvolvidas pesquisas que envolvem agentes biológicos de classe três, o que inclui vírus, bactérias e fungos altamente infecciosos que causam doenças mais graves, ou para os quais ainda não existem vacinas ou tratamentos eficazes (de risco 3) e que precisam ser investigados em condições de contenção extremamente rigorosas a fim de evitar contaminação aos pesquisadores, ao ambiente ou à população em geral.
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) investiu R$ 3,9 milhões neste projeto por meio de convênio firmado em agosto de 2023 com a Universidade Federal de Goiás (UFG) e o Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP). O laboratório foi inaugurado no último dia 26 de junho.
O NB3 vai funcionar no 1° andar do Centro Multiusuário de Pesquisa de Bioinsumos e Tecnologias em Saúde (CMBiotecs) do IPTSP/UFG, no setor Leste Universitário. O espaço ocupa uma área total de 103,9 m² assim distribuídos: o NB3 ocupa uma área de 53,85 m², que contempla o laboratório e as salas de paramentação (ambiente limpo para colocar os EPIs) e a sala de desparamentação (ambiente para retirada dos EPIs – sujo). Em seguida, tem o Laboratório de Nível de Biossegurança 2 (NB2) com uma área de 32,78 m². E por fim, a antecâmara e a sala de lavagem para esterilização/descontaminação de resíduos biológicos que totalizam 17,27 m².
Com a implementação física estrutural do laboratório concluída, o estado de Goiás se coloca em nível de expertise comparável aos outros centros nacionais e internacionais, é o que conta a diretor do IPTSP, Yves Mauro Ternes.
Na avaliação da reitora da UFG, Sandramara Matias Chaves, o fato de a Instituição sediar o primeiro laboratório com Nível de Biossegurança 3 do Estado de Goiás demonstra a relevância e o reconhecimento da atuação dos cientistas da Universidade, especialmente no que se relaciona às pesquisas voltadas à produção de conhecimento para a prevenção e o tratamento de doenças altamente infecciosas. Ela ressalta que este é um trabalho de alto impacto para a sociedade que requer investimentos condizentes. “Por isso, destaco o fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapeg) que tornou possível esse grande passo para a saúde pública”.
O presidente da Fapeg, Marcos Arriel, comemora esse marco histórico e ressalta que ao contribuir para a instalação do primeiro Laboratório Multiusuário com Ambiente Controlado de Nível de Biossegurança 3 no Estado de Goiás, a Fapeg cumpre seu objetivo de fomentar a ciência, a tecnologia e a inovação para o desenvolvimento do Estado. “Temos, em Goiás, profissionais altamente capacitados nesta área e por meio do convênio, a Fapeg estará colaborando para reter e atrair talentos para o Estado; para acelerar pesquisas com micro-organismos potencialmente ameaçadores e dar respostas em saúde pública para o presente e de olho no futuro; com a ampliação das linhas de pesquisa e produção científica de diversos programas de pós-graduação; com o incremento de parcerias público-privadas para diversos tipos de projetos científicos e inovadores, além de possibilitar o acesso de outras instituições ao laboratório, que poderá ter seu uso compartilhado. Vamos impulsionar as pesquisas em Goiás e no Brasil”, destaca.
Para a pesquisadora, Ana Paula Junqueira-Kipnis, que coordena o NB3 no IPTSP/UFG, com o laboratório, novas pesquisas nas áreas de saúde, ciências biológicas, ciências agrárias, biotecnologia poderão ser executadas. Segundo ela, a falta de um laboratório NB3 representou um gargalo de décadas, pois diversas pesquisas científicas deixaram de ser propostas. “A não realização dessas pesquisas resultou em uma lacuna de conhecimento e, consequentemente, no estancamento do avanço científico. Pesquisas envolvendo doenças como a tuberculose, HIV, covid-19, além de outros vírus, e também parasitárias como a leishmaniose, fúngica como a paracoccidioidomicose (PCM), entre outras, não foram realizadas pela ausência de laboratórios com condições de biossegurança adequadas”, relata.
Novas pandemias
Para o coordenador da Comissão de Pesquisa do IPTSP/UFG e membro da comissão de implantação do NB3 no IPTSP/UFG, Prof. André Kipnis, a epidemia de covid-19 evidenciou a necessidade desse tipo de laboratório para ajudar a entender o problema e propor soluções em níveis internacional, nacional e regional. As pandemias são causadas por agentes infecciosos para os quais não existem métodos conhecidos de prevenção, erradicação rápida ou tratamento eficaz. “Esta não foi e nem será a última pandemia enfrentada, principalmente devido às mudanças climáticas. Ter um laboratório de contenção de nível 3 permitirá trabalhar com segurança e investigar agentes dessa classe de risco, que possam representar um problema nacional ou que exijam ações imediatas tanto da comunidade científica quanto dos profissionais de saúde na manipulação de amostras infectadas”, ressalta o pesquisador.
Ele justifica que, apesar de Goiás e especificamente a UFG terem realizado diversas pesquisas cujo foco foi o diagnóstico, tratamento e prevenção da covid-19, a falta do laboratório NB3 foi um limitador para que estudos fossem realizados. Como exemplo ele cita o desenvolvimento de uma vacina para covid-19 e a sua testagem em modelos animais, o cultivo de materiais provenientes das pessoas infectadas pela doença, a separação de fragmentos de materiais coletados, sua identificação, bem como o estudo de mecanismos envolvidos na infecção e na resposta imune ao vírus.
Com a implantação do laboratório, os cientistas poderão se dedicar a pesquisas voltadas ao combate de patógenos emergentes, agentes infecciosos que podem causar surtos, epidemias e pandemias. A professora de imunologia Dra. Simone Gonçalves da Fonseca, do IPTSP/UFG e membro da comissão, explica que é crucial contar com um espaço como o NB3 para o desenvolvimento de pesquisas, dado o risco de surgimento de novas doenças ou daquelas que ainda não acometeram a humanidade. “A pandemia de covid-19 evidenciou a importância de estarmos preparados para enfrentar essas ameaças. Além disso, estamos observando o ressurgimento de doenças que já haviam sido controladas, como o sarampo e a febre amarela”, destaca a pesquisadora.
Etapas
O Prof. André Kipnis explica que, antes de ser liberado para uso, o laboratório passou por rigorosos testes de funcionamento para garantir sua capacidade de contenção e o adequado funcionamento de todos os procedimentos de manutenção e operação. Os protocolos de trabalho específicos para esse ambiente foram desenvolvidos e certificados. Os profissionais que atuarão no laboratório passaram por um treinamento rigoroso para obter certificação para atuarem nesse ambiente. Por fim, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), aprovou o funcionamento do laboratório.
Segurança e controle
O NB3 é um espaço totalmente controlado. O acesso é rigorosamente limitado e se dá através de duas portas com sistema de intertravamento, além de entrada e saída por uma via única, para que não haja o escape de agentes infecciosos. O laboratório conta também com uma autoclave de barreira e passthrough, utilizados para a descontaminação de materiais ou a entrada/saída de materiais de dentro do local. Estes espaços também foram equipados com cabines de segurança biológica classe II A2 e outros equipamentos.
Uma das principais características desse tipo de laboratório é o sistema de ar com controle muito rigoroso para garantir que agentes infecciosos ou organismos geneticamente modificados não escapem do ambiente confinado. A coordenadora do Laboratório NB3, Ana Paula Junqueira Kipnis explica que “ isso se dá por um sistema de pressão negativa progressiva nos ambientes e todo o ar proveniente dos ambientes é retirado e filtrado em filtros de altíssima capacidade de retenção de partículas, associado a um sistema de automação que mantém as pressões internas negativas do ambiente que é monitorado permanentemente”. A pressão negativa dentro do laboratório NB3 é essencial para impedir que contaminantes escapem para o ambiente externo. “A pressão negativa é criada quando o ar é retirado do laboratório mais rapidamente do que ele é introduzido, criando um vácuo relativo. Isso garante que, caso uma porta seja aberta, o ar de fora entre no laboratório em vez do ar do laboratório sair para o exterior e se espalhar para outras dependências”, explica.
Segundo a bióloga e integrante do CMBiotecs, Elaine Jacob da Silva Carmo, que liderou, junto à equipe técnica, a implementação física e estrutural do NB3 e seguiu envolvida nos estudos de sua operação, o sistema de automação do laboratório — integrado ao ar-condicionado — monitora e ajusta continuamente as condições internas, como pressão, temperatura, umidade e fluxo de ar. Sensores instalados no ambiente detectam qualquer variação de pressão, permitindo que o sistema realize automaticamente os ajustes necessários para manter o equilíbrio. Dessa forma, mesmo em situações de falha, como a abertura acidental de uma porta, a segurança do laboratório é preservada.
Ela destaca ainda a importância da filtragem e contenção, onde o ar que sai do laboratório passa por filtros HEPA (High-Efficiency Particulate Air) que capturam partículas microscópicas, incluindo patógenos. Isso é crucial para garantir que, mesmo que o ar seja expelido do laboratório, ele não contenha contaminantes.
Equipe do projeto de implantação
Atualmente, a comissão de implantação do NB3 no IPTSP/UFG é composta por uma equipe de profissionais altamente qualificados, formada pela Prof.ª Dr.ª Ana Paula Junqueira Kipnis; Prof. Dr. André Kipnis; Prof.ª Dr.ª Simone Gonçalves da Fonseca; Dr.ª Natália Oliveira e que, em sua fase inicial, contou também com o apoio da doutoranda Elaine Jacob.
O projeto conta ainda com o apoio institucional da Secretaria de Infraestrutura (SEINFRA), da Secretaria de Tecnologia e Informação (SETI) e da Secretaria de Promoção da Segurança e Direitos Humanos (SDH) da UFG, além da direção do IPTSP, representado pelo Prof. Dr. Yves Mauro Fernandes Ternes e pela vice-diretora Profª. Drª. Thaís Rocha Assis, e do coordenador de Planejamento e Gestão do IPTSP, Álisson Pereira dos Santos, junto à equipe técnica do CMBiotecs, bem como a Funape, que hoje tem como diretora executiva, a Profª Dra. Flávia Aparecida de Oliveira.

