Pesquisa goiana sobre qualidade do mel avança com missão científica na França
Projeto aprimora a análise de contaminantes em mel produzido no Sudoeste e Nordeste de Goiás e amplia a capacidade de monitoramento ambiental no estado
Combinando ciência de ponta, cooperação internacional e investimento público, a missão acadêmica da doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Agroquímica Adriana Bernardes, do Instituto Federal Goiano (campus Rio Verde), realizada em março na França, trouxe experiências e protocolos que contribuem para o avanço da pesquisa sobre qualidade do mel, segurança alimentar e monitoramento ambiental. A iniciativa busca aprimorar a detecção de resíduos de elementos-traço com base em protocolos internacionais.
A missão ocorreu na Aix-Marseille Université (AMU), no Institut Méditerranéen d’Océanologie (MIO), em Marselha, no âmbito do Projeto EcoSafe II – Química Analítica Aplicada à Ecotoxicologia do IF Goiano, com apoio da Fapeg, por meio do Edital nº 26/2025, complementar à Chamada nº 30/2024 (Fapeg/Secti) para Experiência Acadêmica Internacional. Adriana é vinculada ao Grupo CAE (Grupo de Conservação de Agrossistemas e Ecotoxicologia) do IF Goiano, sob orientação do professor Althiéris Saraiva (Campus Campos Belos) e coorientação da doutora Andreia Rodrigues, pesquisadora que a recebeu em Marselha.
Mel como sentinela
O projeto investiga a presença e os níveis de mercúrio total e orgânico em amostras de mel das regiões Sudoeste e Nordeste de Goiás (Rio Verde e Campos Belos), coletadas em áreas agrícolas e regiões com atividade mineradora. Nesse contexto, o mel é utilizado como bioindicador de contaminação ambiental.
O estudo busca compreender como fatores ambientais influenciam a saúde das abelhas e a qualidade do mel consumido pela população. Os resultados devem gerar dados inéditos sobre contaminantes em méis goianos, contribuindo para políticas públicas de monitoramento ambiental, práticas agrícolas mais sustentáveis e segurança alimentar.
Durante o intercâmbio, foram realizadas análises para quantificação de mercúrio (tHg) e metilmercúrio (MeHg), utilizando técnicas avançadas como espectrometria de absorção atômica, fluorescência atômica e cromatografia acoplada à espectrometria de massas. Também houve a padronização de protocolos analíticos alinhados a padrões internacionais. A pesquisadora destaca que a investigação desses elementos é relevante devido aos seus potenciais impactos na saúde das abelhas e na segurança do mel para consumo humano.
A experiência proporcionou acesso a infraestrutura ainda indisponível no Brasil, ampliando a capacidade analítica do grupo e garantindo maior comparabilidade dos dados. Os protocolos desenvolvidos serão replicados nos campi Rio Verde e Campos Belos do IF Goiano, fortalecendo a pesquisa local. O estudo encontra-se na fase de análise estatística dos dados, com foco na produção científica e na ampliação da coleta de amostras.
Fases posteriores (2026–2028)
De volta ao Brasil, a pesquisadora está apta a conduzir de forma autônoma as análises de mercúrio e selênio em mel. Esta etapa inclui a interpretação integrada dos resultados químicos e ecotoxicológicos, seguida da elaboração de artigos científicos, relatórios técnicos e propostas aplicadas à meliponicultura.
Os resultados contribuirão para o avanço do conhecimento na área, ampliarão a visibilidade da pesquisa desenvolvida em Goiás e reforçarão a importância do investimento público em ciência para o monitoramento ambiental e a segurança alimentar.
Ciência, cultura e transformação pessoal
Para Adriana, a experiência internacional foi transformadora também no plano pessoal. “A interação com pesquisadores de diferentes países ampliou minha visão científica e cultural, fortalecendo minha formação”, comenta.
Segundo ela, a parceria com o grupo em Marselha fortalece a cooperação científica internacional, promove o intercâmbio de metodologias e a validação de técnicas, além de abrir portas para novos projetos, incluindo proposta já submetida ao Edital nº 37/2025, voltado à inovação na sociobioeconomia e uso sustentável dos recursos naturais no Nordeste Goiano (Cerrado Tech).
Novos pesquisadores
Andreia Rodrigues, pesquisadora que recebeu a aluna em Marselha, destacou a relevância da iniciativa, que vai além do uso de equipamentos e técnicas laboratoriais, abrangendo também o desenvolvimento do pensamento científico, do desenho experimental e da análise crítica dos dados.
“Foi uma experiência enriquecedora também no plano humano. Adriana é uma pesquisadora dedicada, com quem espero manter colaboração futura”, pontuou.
Ela ressalta que iniciativas como essa são fundamentais para a formação de novos pesquisadores, ao promover o desenvolvimento de competências técnicas e o fortalecimento da cooperação internacional e interdisciplinar.
Apoio da Fapeg
A chamada pública integra ações da Fapeg voltadas à internacionalização da pesquisa, promovendo o intercâmbio científico entre instituições goianas e estrangeiras e fortalecendo redes de cooperação em diferentes áreas do conhecimento.
Ao apoiar a participação de estudantes de pós-graduação em missões internacionais, a iniciativa contribui para a formação de recursos humanos qualificados e para o desenvolvimento de projetos de pesquisa em colaboração com instituições estrangeiras. A chamada pública contemplou, ao todo, 22 propostas que receberam até R$ 20 mil, cada, como apoio a despesas relacionadas à missão.
Os alunos indicados pelos proponentes têm como tutores estrangeiros o pesquisador que tenha participado de missões de pesquisa em instituições de ensino superior sediadas em Goiás com fomento da Fapeg. O tutor é o responsável por receber e supervisionar o discente no desenvolvimento de suas atividades durante a missão internacional.
Fotos: Arquivo da pesquisadora






