Editais Meninas e Mulheres em STEM promovem ciência e protagonismo feminino no interior de Goiás
Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) em parceria com a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), o programa do governo estadual, Goianas na Ciência e Inovação vem se consolidando como uma iniciativa de impacto na formação científica de jovens mulheres no interior goiano, alcançando destaques nacional e internacional
São dois editais da parceria Fapeg/Secti, o 07/2024 – Mulheres em STEM, e 08/2024 – Meninas em STEM que estão sendo coordenados pela professora do Instituto Federal de Goiás (IFG), Câmpus Uruaçu, Renatha Cândida da Cruz, ambos intitulados “Meninas Cientistas em STEM: Biotecnologia e Inovação em Defesa do Cerrado”. A proposta busca incentivar meninas e mulheres a protagonizarem a ciência por meio de ações interdisciplinares que integram ensino, pesquisa, extensão e valorização do Cerrado. Para apoiar na coordenação, a professora conta com uma equipe de docentes, técnicos, estudantes e membros da comunidade em geral.
Um dos projetos tem foco na formação científica de estudantes dos cursos de Engenharia Civil, Análise e Desenvolvimento de Sistemas e Licenciatura em Química do IFG – Câmpus Uruaçu, com ações voltadas à produção de cosméticos a partir de insumos do Cerrado e ao desenvolvimento de um sistema de monitoramento ambiental da qualidade da água e do solo analisados no projeto. O segundo, busca popularizar a ciência integrando bolsistas das escolas públicas de Cavalcante e Uruaçu (GO) tendo como foco incentivar a participação de meninas em processos de pesquisa científica nas áreas de Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemática, com ênfase em ações interdisciplinares voltadas à valorização do Cerrado e ao uso socialmente responsável da biotecnologia.
Os trabalhos acontecem em oficinas práticas e experimentações em laboratório, articulando formação técnica e cidadã com o fortalecimento de lideranças femininas na ciência. “A composição da nossa equipe evidencia a importância do projeto enquanto espaço de encontro interdisciplinar e de protagonismo feminino nas ciências. Priorizamos a formação de meninas negras, quilombolas, residentes em áreas rurais, em situação de vulnerabilidade social, com deficiência e demais diversidades,” destaca a professora. As atividades estão sendo realizadas em Uruaçu e Cavalcante, em parceria com escolas públicas e comunidades do entorno, utilizando os laboratórios de Biologia, Química e Informática, além do laboratório IFMaker, salas de aula, espaços externos e ambientes virtuais de aprendizagem, alcançando cada vez mais, projeção nacional e internacional.
Inclusão
A inclusão é uma marca registrada das iniciativas. Os projetos adotam ações afirmativas no acesso às bolsas, promovendo o acolhimento de estudantes de diferentes contextos sociais, étnico-raciais e territoriais. Gênero, raça, classe, deficiência e local de residência são considerados na construção das atividades formativas, todas orientadas por práticas pedagógicas interseccionais, conta Renatha Cruz.
A equipe envolvida é ampla e diversa: “são 44 estudantes do sexo feminino, 19 estudantes do sexo masculino, 26 egressas e 16 egressos que continuam atuando nas atividades mesmo após a formatura, além de professores, técnicos e membros da comunidade, totalizando 122 participantes. Ao todo, o projeto conta com três bolsas de iniciação científica (IC) para o ensino superior e oito bolsas de iniciação científica júnior (ICJ) para estudantes da educação básica, com fomento total de R$ 200 mil via Fapeg. As meninas participantes são estudantes do IFG de Uruaçu, dos cursos técnicos integrados e superiores, além de meninas da educação básica pública de Cavalcante, que são quilombolas, e de Uruaçu. “A equipe envolvida nas ações do projeto é composta por uma rede diversa de participantes, refletindo o compromisso com a inclusão, a formação científica e a articulação entre ensino, pesquisa e comunidade”, destaca a pesquisadora.
“A dimensão formativa é assegurada pela atuação de cinco professores, três professoras, uma técnica e três técnicos, que acompanham os planos de trabalho e as atividades práticas. Somam-se ainda cinco integrantes da comunidade externa, ampliando os vínculos entre o Instituto e os territórios onde atuamos”, conta Renatha.
Mais mulheres na ciência
A baixa representatividade feminina nas áreas STEM ainda é uma realidade. Para Renatha Cruz, essa ausência é resultado de estruturas históricas excludentes, e não de falta de interesse ou de capacidade das meninas. “Esse projeto nasce de um compromisso ético e científico de ampliar o acesso e a permanência das mulheres nesses campos”, destaca. “As mulheres seguem sub-representadas nas áreas STEM, especialmente nos campos das engenharias, tecnologias e ciências exatas, seja pelo machismo institucional, pela ausência de políticas afirmativas, ou pela invisibilização de referências femininas nas ciências. Promover o acesso e a permanência de meninas nesses campos é, portanto, um compromisso ético, científico e social”.
Resultados que vão além do esperado
Renatha Cruz acredita que, ao final das ações, em outubro de 2026, esteja formada uma rede de meninas pesquisadoras com fortes competências científicas. Entre os resultados previstos estão a produção de bioinsumos naturais, o desenvolvimento de protótipos tecnológicos, a elaboração de materiais didáticos, a realização de oficinas e a participação em eventos científicos. “Além dos resultados tangíveis, o projeto visa transformar realidades por meio do pertencimento, da escuta e da formação crítica”. O projeto iniciou formalmente em outubro de 2024. Atualmente, está na fase de execução das atividades práticas, aquisição de materiais e articulação com escolas e comunidades.
Mas os impactos têm ido além do planejado: o projeto foi convidado para uma competição de tecnologia na Argentina com a apresentação de um protótipo de um robô vinculado ao Cerrado (primeira etapa acontecerá neste mês de setembro) e para um evento internacional na Colômbia (II Encontro Internacional Diálogos Acadêmicos em Direitos Humanos, nos dias 22 e 23 de setembro), no qual Renatha é palestrante e coordenadora de um grupo de trabalho que vai relatar o trabalho com as meninas e mulheres em STEM. Também tem marcado presença em eventos como a Campfer (Campinorte) e a Fictur (Uruaçu), levando ciência a diversos públicos.
Recentemente as alunas participaram de uma Imersão Científica com oficinas de robótica, modelagem 3D, corte a laser, cosméticos naturais, informática, ciência e de informação, entre outros temas, promovendo integração entre teoria e prática.
Reconhecimento e continuidade
Renatha Cruz possui longa trajetória na promoção da inclusão feminina na ciência. Além dos atuais editais da Fapeg, ela já liderou projetos com apoio do CNPq, MEC, Museu do Amanhã e British Council e outras instituições, com foco na formação de meninas negras, quilombolas, de áreas rurais e em situação de vulnerabilidade.
Fapeg fazendo a diferença
A coordenadora do projeto comemora o lançamento do edital da Fapeg com foco em gênero. “É uma política pública que atua na raiz das desigualdades, fomentando a inclusão desde a base. Apoiar meninas da periferia, do campo, de comunidades tradicionais, é investir no futuro da ciência brasileira”. Para ela, o edital representa um avanço significativo na política de fomento à ciência com perspectiva de gênero em Goiás e ressalta o apoio a projetos que incentivam a participação de meninas e mulheres nas ciências, com olhar para o interior e para a negritude.







