Bolsista de doutorado da Fapeg estuda racismo intelectual contra negros quilombolas
“Por séculos, tivemos acesso à educação negado, assim como tantos outros direitos. Agora podemos sonhar, por exemplo, em ser doutora em Antropologia Social”
Márcia Sacramento Rocha é uma das 50 bolsistas de doutorado que recebem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) por meio do edital 06/2024 – de concessão de bolsas de formação. A chamada pública contemplou, também, outros 100 alunos para o mestrado. Ter seu nome selecionado neste edital é uma conquista, fruto de muitas de suas lutas para analisar, compreender e transformar as várias faces e entrelinhas mais sutis do racismo intelectual contra negros quilombolas ao atravessar e ocupar espaços de poder e tomadas de decisão como escolas e universidades.
A proposta da pesquisa tem como tema central o racismo intelectual, que segundo a pesquisadora, hierarquiza os saberes e desacredita os corpos negros em espaços de poder como escolas e universidades, territórios onde ela teima em viver e preservar o quilombo e sua cultura. Para ela, a violência racista tem várias ramificações. “À medida que você ocupa determinados espaços de poder e tomadas de decisão, ela se torna mais violenta e sutil”.
“O sangue tá aí, tá gritando: uma etnografia sobre intelectuais quilombolas de Extrema que estão teimando em viver o quilombo em meio a violências racistas” é o título do seu projeto, desenvolvido sob a orientação da professora Suzane de Alencar Vieira, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Goiás (UFG). Márcia já carrega um sobrenome inspirador e forte – Sacramento Rocha – e traz com ela seu maior sonho: “ver o meu quilombo titulado e ver mais e mais jovens tendo a vida transformada pela nossa educação quilombola antirracista, assim como minha vida foi e vem sendo transformada”.
Importância da Bolsa da Fapeg
“A bolsa Fapeg tem sido essencial para que eu e tantos outros estudantes possamos desenvolver nossas pesquisas, e isso democratiza o acesso e a permanência a educação. A permanência de uma mulher negra quilombola na universidade, para que eu possa fazer ciência e trabalhar na luta contra o racismo por meio da ciência quilombola depende do suporte financeiro que a bolsa da Fapeg tem me oferecido. Sabemos que é essencial investir em educação, na produção de conhecimento, e a Fapeg vem fazendo isso com excelência”, declara a pesquisadora.
As bolsas de mestrado da Fapeg são no valor de R$2.310,00 mensais, com duração de até 24 meses e as de doutorado são de R$3.410,00, com duração de até 48 meses. O edital da Fapeg tem como objetivo fortalecer os programas de pós-graduação das instituições de ensino superior de Goiás, contribuindo para a formação de pesquisadores altamente qualificados e para o desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação (CT&I) no estado.
Trajetória
Quilombola, mãe de três filhos, professora antirracista, pedagoga e mestra em Antropologia Social pela UFG, e agora, doutoranda também pela UFG, Márcia nasceu e cresceu no quilombo de Extrema, localizado em Iaciara, região Nordeste de Goiás. Vem de família de professores. Seus pais, trabalhadores rurais, são quilombolas e sempre viveram no quilombo. Ela conta que ensinar está no seu sangue. “Meu povo ensinava uns aos outros quando sequer podíamos pisar numa calçada de escola, e faziam isso em suas casas de adobe no quilombo”.
Ser professora sempre foi um desejo dela. “Desde muito pequena eu brincava de dar aula, de ensinar meus irmãos e meus primos nos terreiros de casa. No entanto, parei de estudar aos 14 anos de idade, e voltei 11 anos depois, fiz a EJA (Educação de Jovens e Adultos) e terminei o ensino médio”. Foi quando suas filhas e seu filho nasceram que o desejo bateu mais forte. “Eu olhava para eles e pensava, eu preciso enfrentar, principalmente por eles, e tantas outras crianças e jovens que sempre estiveram marginalizados, sem perspectivas, sem oportunidade”.
“Está fazendo quase um século que meu povo veio a pé do estado da Bahia e hoje vive no quilombo de Extrema. Fomos reconhecidos como quilombolas somente no ano de 2014, e ainda não temos a titulação de nosso quilombo”. Hoje o quilombo se destaca na construção das Bonecas Catarina desenvolvida pela professora doutoranda Maria Madalena, outra liderança intelectual da comunidade. O ateliê para a fabricação de bonecas de pano negras visa não apenas a geração de renda, mas também a preservação cultural e a valorização da identidade afro-brasileira. As bonecas com representatividade negra remetem à história e se propõem a fazer um resgate cultural dos povos quilombolas. A comunidade também trabalha com a criação de animais domésticos como galinha, plantação de roça nos quintais, e se destaca nos festejos como levantamento de mastro, entre outros, além do grande número de jovens que já envia para a universidade nos mais diversos cursos. “No meu quilombo, temos três mestras, uma mestranda e duas doutorandas. Além de muitos jovens que concluíram e ou ainda estão cursando cursos de graduação”.
Racismo crescente
Quando perguntado se considera que o racismo/violência intelectual e outros tipos de racismo tem aumentado ou reduzido nestas comunidades e se elas têm algum respaldo nas políticas públicas, Márcia responde categórica: “Não, pelo contrário, o racismo só tem aumentado em todas suas ramificações. Sentimos isso todos os dias, sobretudo quando ocupamos espaços de poder e tomadas de decisão, que ainda hoje a branquitude faz de tudo para nos impedir de acessar e ocupar. Precisamos de políticas públicas, que de fato, sejam implementadas, não somente criadas. Infelizmente, a nossa sociedade é extremamente violenta e cruel, e ainda hoje temos nossos conhecimentos medidos com base na cor da nossa pele, somos tratados de forma estereotipada e rotulados”.
Marcas do racismo
“Quando criança, foi na escola que sofri racismo pela primeira vez, e essas marcas ficaram em mim, muitas, eu carrego até hoje as cicatrizes. Quando entrei na graduação em Pedagogia na UFG, eu senti as ausências de pessoas como eu, tanto dentro das salas de aulas, no corpo docente, quanto nos livros e textos estudados. Não porque não existíamos, mas por causa do silenciamento e das tentativas de apagamento de nossas trajetórias e lutas. Dentro da universidade, eu senti mais do que nunca a necessidade de lutar e de defender os direitos de meu povo. Eu percebi que eu não podia mais parar. Na universidade, atuei trabalhando na formação de professores da UFG, dando cursos e palestras, aulas, levando os conhecimentos e saberes de meu povo, abrindo caminhos e lutando pelos direitos dos nossos”.
Hoje, Márcia é coordenadora pedagógica no Colégio Estadual José Bonifácio da Silva, em Aparecida de Goiânia, e sua pesquisa basicamente se encontra no ambiente escolar e nos movimentos sobre quilombos na atualidade. Ela conta que não consegue separar sua luta contra o racismo, seu trabalho pela garantia do direito à educação, da sua própria vida. “Tenho desenvolvido um trabalho antirracista na escola que atuo e rendeu uma entrevista para a Rede Globo, no ano de 2024. Assista à reportagem da Rafaela Lima, da TV Anhanguera que foi apresentada no Programa É de Casa. https://globoplay.globo.com/v/13026848 .
Trabalhei na construção do “Documento Orientador, intitulado Equidade racial e educação das relações étnico-raciais como princípios orientadores do trabalho na rede de ensino de Goiás”, por meio da educação quilombola antirracista, com base nos modos de ensinar e de aprender de meu povo, como mecanismo de luta e resistência no enfrentamento ao racismo.
Dentro do seu projeto de pesquisa, Márcia tem desenvolvido atividades formativas como as disciplinas obrigatórias do Programa de Pós-Graduação e participação em cursos e eventos acadêmicos; realizado atividades preparatórias para a pesquisa de campo como estudos teóricos, levantamentos bibliográficos na área de estudos da antropologia das populações afro-brasileiras, estudos sobre educação quilombola, e pesquisa de campo em escolas e universidades; atividades e participação de discussão sobre política antirracista na Educação do Estado de Goiás. Márcia também exerce a docência na Educação Básica e atividades de gestão escolar que oferecem momentos de atuação e observação em sua pesquisa sobre educação e racismo. Atua, ainda, no Núcleo de Pesquisa Caroá da Faculdade de Ciências Sociais da UFG, na organização de eventos acadêmicos e no trabalho de organização e preparação da pesquisa. E, aguarda a liberação pelo Comitê de Ética em Pesquisa – CEPI/UFG, para iniciar a pesquisa de campo.
Depoimentos
“Dentro da escola, lugar que até pouco tempo nem na calçada podíamos pisar, agora estamos adentrando apesar das lutas, como professora, pedagoga, mestra em antropologia Social. Enquanto educadora antirracista, caminho diretamente com os alunos, e atuo também na formação dos professores e de toda comunidade escolar, sobretudo na função de coordenar e isso está diretamente ligado à minha pesquisa, logo a minha formação em Antropologia Social faz toda diferença na luta antirracista.
No território universidade, apesar das violências que nos atravessam, as barreiras estão sendo rompidas e estamos ocupando esses espaços de poder que até pouco tempo nos era negado, e agora podemos sonhar, por exemplo, em ser doutora em Antropologia Social. Diante dessa realidade, minha formação em antropologia social é essencial para que eu, juntamente com meu povo quilombola de Extrema, possamos seguir trilhando de dentro de espaços como estes.
Enquanto professora quilombola, na sala de aula ou na coordenação, na formação de professores, já estamos atuando dentro das escolas no estado de Goiás na luta contra o racismo. Concomitantemente, como estudante e pesquisadora estamos ocupando espaços dentro da universidade. E com isso, intentamos em trazer, por meio de nossos saberes quilombolas, contribuição para a construção da história da educação de nosso povo negro quilombola do estado de Goiás na luta antirracista, narrada e escrita de dentro do quilombo, a partir do olhar de uma pesquisadora quilombola de Extrema, em Iaciara-GO. Tudo isso somará em minha caminhada profissional, bem como, na minha vivência acadêmica”.
Fotos: Arquivo da Pesquisadora





