Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência: desafios, conquistas e equidade

Indicadores nacionais e da Fapeg mostram crescimento consistente da participação feminina na pesquisa, com maioria nas bolsas de formação, avanço no doutorado, políticas públicas de apoio e fortalecimento de redes que ampliam a presença e a liderança das mulheres na ciência goiana

Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado no dia 11 de fevereiro, é uma data aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2015 para destacar a importância da participação feminina no avanço científico e tecnológico. Relatório da Elsevier-Bori “Em direção à equidade de gênero na pesquisa no Brasil”, de 2024, aponta que, nos últimos 20 anos, a proporção de pesquisadoras que assinam publicações científicas no país saltou de 38% para 49%. O Brasil é o terceiro colocado na lista dos locais com maior participação feminina na ciência, que conta com 18 países mais a União Europeia.

Bolsas de formação
Em Goiás, a leitura dos dados da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) sobre a concessão de bolsas de formação, revela um cenário positivo e em transformação: as mulheres são maioria entre os bolsistas e avançam de forma consistente em todos os níveis da pós-graduação, do mestrado ao doutorado. Entre 2021 e 2025, a Fapeg concedeu 895 bolsas de formação, das quais 504 foram destinadas a mulheres, o equivalente a 56,3% do total, frente a 43,7% para homens (391). Os números evidenciam uma presença feminina majoritária no conjunto das bolsas de formação e o papel estratégico da Fundação que tem promovido debates, lançamento de editais e bate-papos visando a promoção da equidade de gênero e o fortalecimento da presença feminina na ciência goiana.

A análise histórica mostra que, ao longo dos últimos cinco anos, as mulheres mantiveram maioria no acesso às bolsas concedidas pela Fapeg. Em 2021, elas representavam 59,3% do total. Esse percentual se manteve acima de 57% até 2023 (57,8% em 2022 e 57,1% em 2023) e passou a se aproximar do equilíbrio nos anos seguintes.

Em 2025, o cenário alcança praticamente a paridade: 50,7% das bolsas foram concedidas a mulheres e 49,3% a homens, indicando um ambiente científico cada vez mais equilibrado, inclusivo e baseado em oportunidades iguais. Para a Fapeg, esse movimento reflete o impacto de políticas públicas de fomento comprometidas com a democratização do acesso à formação científica e com a valorização da diversidade nos espaços de pesquisa.

Mestrado e doutorado
A presença feminina se destaca tanto no mestrado quanto no doutorado entre as bolsas concedidas pela Fapeg, modalidades fundamentais para a consolidação da carreira científica. No mestrado, as mulheres foram maioria em todos os anos analisados, com percentuais que chegaram a 60,8% em 2022.

No doutorado os dados mostram avanços relevantes. Em 2025, por exemplo, a distribuição das bolsas de doutorado financiadas pela Fapeg atingiu equilíbrio absoluto: 50% para mulheres e 50% para homens.

Inovação e Auxílio à pesquisa
Já os fomentos da Fapeg concedidos para a área da Inovação e para o Auxílio à pesquisa registram uma presença masculina maior, resultado de uma maior procura dos homens nos editais lançados pela Fundação. Na área de inovação os números apontam 57,6% de fomentos ao gênero masculino e 17,7 para o feminino, de um total de 639 proponentes. Já o Auxílio à pesquisa fica com 45,6% para os homens e 39,3% para as mulheres, de um total de 7983 propostas, segundo os dados dos proponentes dos projetos aprovados.

Licença-maternidade
Em 2024 a Fapeg garantiu a licença-maternidade para pesquisadoras bolsistas da instituição, uma das ações da Fundação que busca promover a igualdade de gênero na ciência e inovação e assegura às pesquisadoras a continuidade de suas contribuições para o desenvolvimento científico sem interrupções em momentos tão significativo da vida das mulheres. Nestes dois últimos anos, a Fundação já concedeu 19 licenças-maternidade.

Políticas públicas
O Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) e da Fapeg, já investiu mais de R$ 2,5 milhões em projetos liderados por mulheres nas áreas de Ciências Exatas, Engenharias e Computação. Desde 2024, foram apoiados 31 projetos de pesquisa, 30 negócios inovadores e 57 iniciativas voltadas para transformar ideias em negócios, impactando positivamente a vida de milhares de mulheres e meninas em Goiás.

Leitura dos números das bolsas de formação – Fapeg
Meninas e mulheres não apenas participam, mas lideram o acesso às bolsas de formação no período analisado.

Há um processo de transição, saindo de uma maioria feminina mais ampla para um cenário de maior equilíbrio de gênero.

O crescimento da participação feminina no doutorado reforça a ideia de permanência e progressão das mulheres na ciência, e não apenas de ingresso inicial.

Os dados mostram que a ciência, no âmbito acadêmico, está cada vez mais diversa do ponto de vista de gênero, com mulheres ocupando espaço de forma estruturada e sustentável, ao mesmo tempo em que o sistema caminha para relações mais equilibradas entre homens e mulheres.

Palavra de pesquisadora

A pesquisadora Mariana Pires de Campos Telles, doutora e bióloga que coordena projetos fomentados pela Fapeg como Araguaia Vivo 2030, o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio Araguaia) e o Centro de Excelência em Genética e Genômica (CEGGen), argumenta que os dados apontam avanços importantes, mas também evidenciam desafios estruturais ainda presentes na ciência brasileira. “Apesar dos avanços, a ciência ainda reflete desigualdades estruturais em muitos aspectos e neste não é diferente.” Ela cita dados de instituições como o CNPq e CAPES que mostram que as mulheres são maioria na formação científica, desde a graduação até a pós-graduação. “No entanto, essa presença diminui à medida que avançamos na carreira, como se observa, por exemplo, no acesso às bolsas de produtividade em pesquisa do CNPq, assim como nos cargos de liderança e nos espaços de tomada de decisão em Ciência, Tecnologia e Inovação”.

“Na minha experiência à frente de grandes projetos e de outras iniciativas em rede, esse cenário se torna ainda mais evidente. Essa desigualdade não está relacionada à falta de competência, mas a fatores históricos, à sobrecarga de trabalho e aos desafios de conciliar a carreira científica com as outras dimensões da vida”, analisa.

“Ao longo de toda a minha trajetória como docente e pesquisadora, sempre refleti muito sobre essas questões e, de forma intencional, faço questão de me esforçar para motivar e apoiar meninas e mulheres que têm vocação e desejo de seguir a carreira científica. Acredito que essas atitudes se constroem também nos pequenos gestos e nas decisões do dia a dia dentro da universidade. Procuro fazer aquilo que eu gostaria que tivesse sido feito por mim, mesmo tendo enfrentado inúmeros obstáculos ao longo da minha vida profissional. Seguir na ciência exige muita determinação e, por isso, a existência de redes de apoio é fundamental para que as mulheres não desistam. As universidades ainda podem mudar muito em relação a isso”, pontua a pesquisadora.

Apoio institucional fortalece redes e amplia referências femininas

Mas a pesquisadora destaca avanços significativos, com mais mulheres assumindo posições estratégicas e liderando equipes em diferentes áreas. “Políticas públicas de fomento, como as conduzidas pela Fapeg, são decisivas para enfrentar esse cenário. As fundações de amparo à pesquisa têm um papel fundamental na construção de um sistema científico mais justo. O apoio contínuo permite que mulheres permaneçam na ciência, liderem projetos e se tornem referências para novas gerações”, afirma. Destaca que a atuação da Fapeg vai além do financiamento individual, ao fortalecer redes de pesquisa e projetos colaborativos que ampliam a visibilidade das mulheres na ciência, consolidam conquistas e promovem mudanças estruturais de longo prazo.

“Ao longo da minha trajetória, sempre busquei construir projetos científicos de forma colaborativa, com uma participação feminina expressiva em todas as etapas do trabalho. Iniciativas como o documentário Expedição Araguaia mostram que as mulheres estão presentes no campo, no laboratório, na coordenação, na gestão, na comunicação da ciência ou onde elas quiserem estar!”

Esses projetos, segundo ela, contribuem para o avanço científico ao incorporar diferentes olhares, experiências e formas de fazer ciência, o que fortalece a qualidade das pesquisas e amplia o alcance dos resultados. Ao mesmo tempo, a visibilidade das mulheres nesses processos ajuda a romper estereótipos ainda associados à atividade científica, especialmente em áreas tradicionalmente relacionadas aos homens.

Um exemplo recente disso aconteceu nas próprias expedições do Araguaia. Segundo a pesquisadora, na primeira edição, houve uma participação mais reduzida de mulheres. “No ano passado, eu chamei a atenção para isso com toda a equipe e já conseguimos ampliar significativamente a presença feminina — e, neste ano, essa participação se consolidou. A presença de pesquisadoras e professoras em posições de liderança faz diferença, pois fortalece o ambiente, cria referências imediatas e incentiva novas participações. É uma dinâmica de retroalimentação positiva, pois quanto mais mulheres participam e lideram, mais meninas e jovens pesquisadoras se sentem pertencentes e motivadas a ocupar esses espaços”.

A participação feminina na expedição Araguaia Vivo vem em um crescente. A Pesquisadora relata que em 2024 foram 17 participantes, 12 homens (70.6%) e 5 mulheres (29,4%); em 2025 foram 36 pessoas, sendo 20 homens (55.6%) e 16 mulheres (44.4%); e fechando a equipe de 2026 serão 34 pessoas, sendo 17 homens e 17 mulheres.

“Quando mostramos mulheres atuando de forma protagonista na pesquisa, na liderança de equipes e na divulgação científica, criamos referências reais para meninas e jovens pesquisadoras. Tenho convicção que isso faz toda a diferença. Essas iniciativas não apenas produzem conhecimento, mas também cumprem um papel formativo e transformador, reforçando que a ciência é um espaço possível, diverso e acessível para todas”.

Mãe e filha fazendo ciência

No âmbito pessoal, a pesquisadora relata a experiência de trabalhar ao lado da filha Ana Clara, como um processo enriquecedor e inspirador. “Trabalhar ao lado dela na divulgação científica é uma experiência muito especial e significativa para mim. Ela é publicitária, e eu tenho aprendido muito com ela. A trajetória dela, que passou pelo empreendedorismo antes de se aproximar mais diretamente da ciência, trouxe um olhar novo para a comunicação, mais atento às linguagens contemporâneas e à forma como dialogamos com a sociedade. A comunicação é sempre um desafio complexo, e quando conseguimos reunir olhares e bagagens de diferentes áreas, o resultado tende a ser muito mais potente”.

A aproximação dela com a ciência também é fruto de uma vivência familiar. O pai sempre atuou como pesquisador, o que fez com que a ciência e a curiosidade científica estivessem presentes desde cedo no cotidiano dela. De certa forma, esse contato contínuo criou uma base importante, que hoje se reflete na forma como ela se envolve e se identifica com os projetos.

Mariana Telles relata que um marco importante nesse processo foi a participação da filha na expedição do barco hotel no Araguaia, no ano passado. Essa vivência ampliou o engajamento e o senso de pertencimento dela aos projetos, aproximando-a ainda mais das atividades de pesquisa desenvolvidas em campo e nos laboratórios. A partir dessa experiência, ficou mais evidente para ela a sua capacidade de contribuir de forma concreta, especialmente por meio da comunicação científica bem estruturada e executada.

Atualmente, a filha integra a equipe, como publicitária, no projeto “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede”, coordenado pela professora Andreia Juliana Caldeira, da UEG, o que tem gerado oportunidades muito significativas de atuação na comunicação aplicada à ciência. Essa experiência reforça a importância de ocupar, de forma mais estruturada e efetiva, o campo da comunicação científica, que ainda carece de maior participação de profissionais da área da comunicação.

Para Mariana, iniciativas como essa cumprem um papel formativo e transformador. “Quando mostramos mulheres atuando de forma protagonista na pesquisa, na liderança e na divulgação científica, criamos referências reais. Isso faz toda a diferença para que meninas e jovens mulheres percebam a ciência como um espaço possível, diverso e acessível.”

  • A Elsevier é uma empresa holandesa que atua na produção de conteúdo científico e técnico. A Agência Bori tem como missão a valorização das evidências científicas por meio da divulgação à imprensa.

Governo na palma da mão