Com apoio da Fapeg, pesquisa goiana se destaca em premiação de inovação científica em SC

Pesquisa desenvolvida no Instituto de Química da UFG cria rota sustentável para síntese de compostos promissores no tratamento do Alzheimer e já possui patente concedida

Goiás conquistou o segundo lugar na modalidade “Inovação de Processos”, do Prêmio Inova UFSC 2025, um dos eventos mais importantes da inovação científica do Brasil. O reconhecimento foi alcançado por uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás (UFG), voltada à síntese sustentável de compostos com potencial para o tratamento da Doença de Alzheimer. A premiação aconteceu no último dia 26, em Florianópolis (Universidade Federal de Santa Catarina).

O trabalho é conduzido pelos professores e pesquisadores Sumbal Saba e Jamal Rafique, do Laboratório de Síntese Sustentável e Organocalcogênio (LabSO/UFG). Eles desenvolveram uma pesquisa voltada à síntese de fármacos por rotas verdes para o tratamento da doença de Alzheimer e já resultou em uma patente concedida à UFG. Esta premiação demonstra o potencial de Goiás, que investe em pesquisa de ponta em fármacos contra doenças neurodegenerativas, gerando valor econômico, científico e social para a região Centro-Oeste. Atualmente estas doenças afetam mais de 55 milhões de pessoas no mundo.

Um dos principais diferenciais da pesquisa está tanto na eficácia quanto no processo de fabricação. De acordo com Sumbal Saba, o composto mais promissor (identificado como Im) apresentou atividade superior à do medicamento comercial galantamina, atualmente uma das referências no tratamento de Alzheimer. Além disso, descreve a pesquisadora, os compostos demonstraram forte ação antioxidante por múltiplos mecanismos simultaneamente, característica considerada estratégica no combate aos processos neurodegenerativos. A produção dessas moléculas utiliza técnicas de Química Verde e Síntese Sustentável: reações rápidas com irradiação por micro-ondas, solventes sustentáveis e sem geração de resíduos tóxicos.

Os pesquisadores explicam que o processo é escalável, ou seja, funciona igualmente bem em escala laboratorial e em escala industrial, o que o torna promissor para futura produção farmacêutica. A inovação está protegida pela patente concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), registrada como (BR 10 2022 007315-5, 2022) que protege a inovação e garante que a tecnologia desenvolvida na UFG possa ser licenciada, atraindo parceiros industriais e transformando conhecimento científico em produto real para a saúde da população.

Pesquisa premiada e importância da patente

A patente leva o título “Síntese de Derivados de Acil Selenoureia com Ação Antioxidante e Inibidora da Acetilcolinesterase para o Tratamento da Doença de Alzheimer.”

Para explicar o mecanismo de ação, Sumbal Saba utiliza uma analogia simples: o cérebro de uma pessoa com Alzheimer pode ser comparado a uma cidade em que os serviços de comunicação começam a falhar progressivamente. Nesse cenário, as pequenas moléculas desenvolvidas pelo grupo, sintetizadas por rota verde, chamadas de derivados de acil selenoureia, atuariam como “técnicos de reparo” nessa cidade. Elas bloqueiam a enzima responsável por degradar o sinal de comunicação entre os neurônios e, ao mesmo tempo, combatem o estresse oxidativo, outro grande vilão da doença, um dos principais fatores associados à progressão do Alzheimer.

Apoios estratégicos da Fapeg

O desenvolvimento da pesquisa contou com apoio decisivo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), que financiou etapas fundamentais do projeto. Por meio da chamada pública 04/2023 – Programa de Auxílio à Pesquisa Científica e Tecnológica – Aquisição de Equipamentos, a fundação investiu R$279.965,00 para aquisição de um reator de micro-ondas para implementação da linha de pesquisa em química verde: uma forma econômica e sustentável de realizar sínteses orgânicas e inorgânicas. “Sem essa infraestrutura construída com apoio estadual, os resultados que levaram à patente, e à premiação simplesmente não existiriam”, destaca a coordenadora do LabSo, Sumbal Saba. A professora também destaca o apoio da Fapeg em vários projetos de pesquisa envolvendo alunos da pós-graduação do IQ-UFG que estão em andamento e que deverão resultar em artigos e patentes de alta qualidade.

Por meio de um outro edital, o 01/2025 – Goianos e Goianas de Destaque em CT&I, a Fapeg investiu R$ 8.850,00 para custear inscrição, passagem aérea e diárias para participação no evento da premiação. “Estas despesas, para pesquisadores de instituições do interior do país, frequentemente representam barreiras reais de acesso às premiações nacionais”, destacou Sumbal Saba. “Graças a esse apoio, consegui participar do evento e receber a premiação”, afirma.

“O apoio da Fapeg é, portanto, um investimento em cadeia: começa na bancada do laboratório, passa pela proteção intelectual via patente e chega ao reconhecimento nacional, demonstrando que a ciência goiana tem capacidade de competir em alto nível. Esse tipo de parceria entre a Fundação Estadual de Amparo à Pesquisa e os grupos de pesquisa das universidades públicas é essencial para que Goiás consolide sua posição no mapa da inovação científica brasileira. Cada prêmio conquistado com apoio da Fapeg é também uma conquista do sistema de ciência e tecnologia do Estado”, pontua a pesquisadora.

A patente tem como autora principal a professora Sumbal Saba (UFG). Entre os coinventores e participantes da pesquisa estão o pesquisador professor Jamal Rafique (UFG e UFMS), além de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina, professor Antonio Luiz Braga e professor Tiago Elias Allievi Frizon, juntamente com estudantes de pós-graduação envolvidos no projeto.

Perspectivas para os próximos anos

A professora Sumbal Saba reforça que essa jornada como mulher, mãe e cientista emergente no Centro-Oeste (a pesquisadora é paquistanesa), liderando pesquisa de fronteira em Goiás, é também uma mensagem de que a ciência transformadora pode emergir de qualquer lugar, desde que haja talento, determinação e apoio institucional adequado.

Para ela, a concessão da patente representa apenas o início de uma jornada científica e tecnológica mais ampla. Os próximos passos, segundo ela, têm dois eixos principais: o aprofundamento científico e a transferência da tecnologia para aplicação real.

No campo científico, os ensaios pré-clínicos são a prioridade imediata, nos quais os compostos mais promissores serão testados em modelos celulares e animais para avaliar segurança, farmacocinética (como o composto se comporta no organismo) e eficácia terapêutica in vivo. Em paralelo, o grupo continuará otimizando as moléculas, buscando ampliar ainda mais a potência e reduzir possíveis efeitos colaterais.

“No campo da inovação, buscamos parceiros industriais, farmacêuticas e empresas de biotecnologia, interessados em licenciar a tecnologia patenteada para desenvolvimento de um futuro candidato a fármaco contra Alzheimer. A escalabilidade comprovada do processo (de 1 mmol a 10 mol com 83 a 94% de rendimento) é um argumento técnico robusto para essa conversa”, pontua.

A expectativa é que, em um horizonte de cinco a dez anos, ao menos um dos compostos desenvolvidos no LabSO-UFG possa avançar para fases clínicas, tornando-se um dos primeiros candidatos a fármaco contra Alzheimer originado integralmente em uma universidade pública brasileira e na região Centro-Oeste.

O laboratório segue formando novos pesquisadores em química medicinal e sustentável, doutores e mestres que levarão essa expertise para outros laboratórios, empresas e instituições em todo o Brasil, multiplicando o impacto do que foi construído em Goiás, afirma a pesquisadora.

Fotos: arquivo da pesquisadora

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