A interiorização da sétima arte


Na tela, o filme exibido era Cine Holiúdy, um longa brasileiro que, com bom humor e criatividade, relata a luta de um cinéfilo para manter a tradição das salas de cinema, ameaçadas pela chegada da televisão, então uma novidade no interior do Ceará nos anos de 1970, época em que se passa a história. Na plateia, famílias inteiras do interior goiano, que mesmo com o advento da tecnologia na Era da Comunicação, ainda têm poucas oportunidades de frequentar grandes cinemas e se encantar com a exibição de filmes em tela grande.

Foi em uma noite de segunda-feira do mês de maio que as atividades domésticas da cartorária Ludimilia Pires Arantes foram totalmente modificadas para que ela e o filho João Vitor, de 8 anos, pudessem usufruir de um programa inusitado para a pacata cidade de Acreúna, a 150 quilômetros da capital. Desde que ficou sabendo pelo rádio que a caravana de cinema ao ar livre passaria por lá naquela noite, as obrigações com o jantar e a arrumação da casa ficaram para segundo plano. Em troca, a dupla preferiu se dirigir para a praça do Ginásio de Esportes e se deliciar com a pipoca e o algodão doce distribuídos para tornar a exibição do filme uma experiência completa.

O município goiano, com pouco mais de 20 mil habitantes, não possui uma sala de cinema disponível para o lazer da população, portanto integrou a lista, junto a outras oito cidades do interior goiano, contempladas pelo projeto Cinema Popular, de iniciativa do Instituto de Cultura e Meio Ambiente Icumam, com amparo da Lei Goyazes. Essa foi a quarta vez que a iniciativa cultural, que acumula nove edições, contemplou o município.

Sentados na primeira fileira, Ludimilia e o filho aguardavam ansiosos para contemplar pela segunda vez a passagem do projeto cultural pela cidade. “A primeira vez que o meu filho viu a um filme na tela de cinema foi justamente nesta praça. É muito bom poder proporcionar essa experiência a ele”, frisou a mãe. Fora as duas exibições assistidas ao ar livre, o pequeno João Vitor teve apenas outras três oportunidades de ir a um cinema convencional, durante passeios da família a outras cidades.

A dona de casa Maria de Fátima Silva se recorda da primeira passagem do projeto pela cidade, momento em que toda a família se mobilizou para assistir juntos ao cinema na praça. Hoje, acompanhada da mãe, dona Ana, espera reviver a mesma experiência encantadora que teve anos atrás. “Sempre gostei de cinema, mas desde que me mudei para cá, há mais de 30 anos, não tive oportunidade de frequentar”, comenta Maria de Fátima. A dupla, assim como Ludimilia e o filho, foi uma das primeiras a chegar para garantir um lugar privilegiado para a exibição.

A sala de cinema mais próxima do município fica a 78 quilômetros de distância, em Rio Verde. Um passeio de uma família envolvendo pai, mãe e um filho para assistir a um filme no município vizinho não sairia por menos de R$200, incluindo os gastos com combustível, estacionamento, alimentação e ingressos do cinema, calcula a ex-secretária municipal da Cultura, Euterpy Pereira Marquez Gomes. Conforme relata, Acreúna é muito carente de equipamentos públicos que proporcionem cultura e lazer aos seus moradores. “Portanto iniciativas como essa são muito valorizadas pelas pessoas. Muitas delas nunca foram sequer a um cinema”, evidencia.

Situação essa vivenciada pela pequena Isabela Alves de Moraes, 7 anos, que nunca havia visto um filme no cinema antes. Acompanhada do bisavô, João Vieira de Moraes, Isabela era pura expectativa para o início do filme e para que ele terminasse a tempo do período disponibilizado pelo seu bisavô antes de ingressar ao trabalho de vigia noturno. “Entro no serviço às 22 horas, portanto, só poderemos ficar até as 21h30. Espero que dê tempo para assistir ao filme todo. Tem mais de 20 anos que não vou ao cinema”, recordou João.

E foi nessa aura de saudosismo, ineditismo e encantamento que quase duas mil pessoas se reuniram naquela noite, em torno de uma tela gigante e de um caminhão de reprodução audiovisual, para juntos acompanharem a história do personagem cearense Franciscleydison, que luta com toda a convicção para manter a cultura do cinema viva, em plena época de popularização da televisão, na saga retratada no filme  brasileiro, Cine Holliúdy. Um misto de semelhanças entre ficção e realidade, onde em ambas as situações era marcante o desejo incondicional de se batalhar pela democratização dos acessos à sétima arte pelo interior brasileiro.

Do povo para o povo

Há nove anos, o Instituto de Cultura e Meio Ambiente – Icumam dedica-se à realização do projeto Cinema Popular, que consiste em levar a cidades do interior goiano que não disponibilizam de salas de cinema a exibição de filmes ao ar livre. Conforme explica a coordenadora do Instituto, Maria Abdalla, o objetivo da iniciativa é democratizar o acesso ao cinema, tendo como mote a divulgação das produções nacionais e, com isso, contribuir para a formação de público para a sétima arte, principalmente de filmes feitos no Brasil. “Nossa maior motivação é levar o cinema para onde ele não existe. E fazer isso de forma prazerosa, como são as exibições ao ar livre junto à comunidade”, evidencia.

Os filmes escolhidos são de classificação livre e que dialoguem com a realidade nacional de alguma forma, seja pela regionalidade, pelo conteúdo abordado, ou pelo simples fato de retratar alguma característica marcante do povo brasileiro. Em anos anteriores já foram contemplados os clássicos de bilheteria Menino da Porteira, O Palhaço, entre outros. Para esta nona edição, a produção cearense Cine Holliúdy foi eleita para divertir o público com a peculiaridade de traços da regionalidade nordestina. “Esse filme foi um sucesso de público por onde passou. E para nós é muito gratificante quando a sociedade interage com o filme, rindo, comentando e fazendo referências ao que está sendo retratado na tela”, alega Maria Abdalla.

Desde que foi lançado, o Cinema Popular já percorreu 40 municípios goianos, envolvendo 190 mil expectadores em mais de 116 mil exibições de oito longa metragens diferentes. Com o objetivo de contemplar um número maior de público, a cada ano o projeto elege novas cidades e repete outras onde a repercussão foi amplamente aceita. Esse ano, a caravana passou por Itaberaí, Crixás, Itapaci, Silvânia, Pires do Rio, Ipameri, Piracanjuba e Acreúna, envolvendo 11.600 expectadores ávidos pela experiência cinematográfica.

Da capital para o interior

Uma das metas da Secretaria Estadual de Cultura nesta atual gestão é promover a descentralização dos investimentos da cultura, permitindo a interiorização do acesso às mais variadas manifestações artísticas. Para isso, explica o secretário Gilvane Felipe, todos os esforços têm sido utilizados no sentido de criar mecanismos legais, e consolidar os já existentes.

A Lei Goyazes, que permite o patrocínio de ações culturais por meio da renúncia fiscal a empresas que se interessem em ser patrocinadoras de projetos, teve o seu valor de incentivo dobrado neste Governo, passando de R$5 milhões anuais para R$10 milhões. É por intermédio da Lei Goyazes que projetos como o Cinema Popular ganham fôlego e conseguem ser realizados. Em 2014, estão sendo apreciados 434 projetos culturais que dependem de aprovação para buscar a capacitação por meio do incentivo fiscal.

Outro mecanismo fundamental para a perpetuação da cultura em Goiás foi a criação do Fundo Estadual de Cultura no final de 2013. Com a sua criação, foi possível garantir a destinação de recursos para a cultura por força da lei, ou seja, sem que esse benefício seja extinto em futuras administrações.“Buscamos incluir no edital de seleção do fundo de cultura um percentual de incentivo a projetos que sejam provenientes do interior ou que contemplem a interiorização das atividades. A nossa meta é que todo o Estado vivencie esse momento de crescimento cultural apoiado pelo Governo do Estado”, explicou Gilvane.

Para o primeiro edital aberto em 2013, e no qual foram inscritos 1200 projetos, estão reservados R$13,5 milhões para serem diretamente repassados dos cofres públicos aos selecionados. Mas, conforme adianta o secretário, para o edital de 2014 esse valor passou para R$26 milhões. Tanto a seleção para a Lei Goyazes quanto para o Fundo de Cultura a responsabilidade da escolha fica a cargo do Conselho Estadual de Cultura. “A Secult não interfere nesse processo de seleção”, evidencia Gilvane.

Imbuída desse objetivo de redemocratizar a cultura pelo interior do Estado, a secretaria se prepara para lançar ainda neste semestre o projeto Goiás Gira Arte, que vai percorrer mais de 60 cidades do interior goiano levando apresentações musicais, teatrais e de dança, além de mostras audiovisuais, acesso à literatura e ao artesanato. “Um projeto que vai movimentar as cidades do interior com a chegada de um caminhão que se transforma em um verdadeiro palco. O início está previsto para junho, em Aragoiânia”, antecipa o secretário.

Mais informações: (62) 3201-9857

Fonte: Site Goiás Agora

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