Fapeg investe R$ 400 mil em projeto de inovação energética
O Agro-Energy Go desenvolverá plataforma de valorização de resíduos do agronegócio para produção de biogás e biometano via combinação de vários substratos em um único biodigestor, além de validação de biofertilizantes e novos modelos de negócios agrícolas sustentáveis
Goiás, tradicionalmente reconhecido pela força do agronegócio, avança para se consolidar também como referência nacional em inovação energética. Com investimento de R$ 400 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), o projeto Agro-Energy GO teve início neste ano e propõe o desenvolvimento e a validação de uma plataforma técnico-econômica integrada para a produção de biogás, biometano e biofertilizantes a partir de resíduos agrícolas.
A iniciativa é conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), em parceria com o Instituto Federal de Goiás (IFG) e a empresa Geo Bio Gas&Carbon. O diferencial do projeto está na combinação de diferentes resíduos agrícolas para a produção de biogás. Enquanto a maioria dos projetos de biogás e biometano no Brasil focam em dejetos animais e resíduos do setor sucroenergético, o projeto goiano inova ao se aprofundar no potencial de geração a partir de resíduos de culturas como milho, soja e sorgo, biomassas abundantes no estado de Goiás e ainda pouco exploradas para fins energéticos no Brasil. A proposta envolve a codigestão de diferentes substratos em um único biodigestor, estratégia capaz de ampliar significativamente a eficiência na geração de energia renovável.
Segundo o coordenador do projeto, professor Marcelo Ferreira Tete, da UFG, a conversão eficiente de resíduos agrícolas em energia e insumos agrícolas contribui para diversificar a matriz energética goiana, ampliar a autonomia dos produtores rurais e fortalecer a competitividade do agronegócio. Além disso, a iniciativa transforma resíduos, muitas vezes vistos como passivos ambientais, em ativos estratégicos para o desenvolvimento sustentável do meio rural.
Novas oportunidades
O Agro-Energy GO integra um conjunto de cinco projetos selecionados em edital da Fapeg, em parceria com a Secretaria-Geral de Governo (SGG), voltado ao fomento de soluções inovadoras para a transição energética no campo. Ao todo, a chamada pública destina R$ 2 milhões a pesquisas desenvolvidas por instituições de ensino superior sediadas em Goiás, com prazo de execução de até 24 meses. No caso do Agro-Energy GO, a conclusão está prevista para o final de 2027.
Para o presidente da Fapeg, Marcos Arriel, a iniciativa está alinhada às políticas públicas estaduais, especialmente ao Programa Goiás Mais Energia Rural. Ele destaca que a validação de modelos de negócio economicamente viáveis para a produção de biogás e biofertilizantes deverá impulsionar a indústria de bioenergia, estimular o surgimento de startups e atrair novos investimentos para o setor. A experiência goiana, segundo Arriel, também pode servir de referência para outros estados, respeitando as particularidades regionais. Segundo Arriel, a parceria academia, governo e setor empresarial coloca Goiás no centro de um movimento crescente de inovação energética rural, alicerçada na sustentabilidade e no aproveitamento dos recursos locais.
Atlas bioenergético
Entre os principais produtos do Agro-Energy GO está a elaboração de um atlas bioenergético inédito, que irá mapear o potencial dos resíduos agrícolas no estado. A partir desse diagnóstico, serão desenvolvidas formulações de codigestão, processo que combina diferentes tipos de biomassa, mais eficientes, capazes de elevar a produção de biogás em até 50%. Outro avanço relevante é a validação do digestato, subproduto da digestão anaeróbica, como biofertilizante. Este componente será testado e certificado para uso agrícola, promovendo um modelo de economia circular e reduzindo a dependência de insumos químicos nas lavouras e impulsionando práticas mais sustentáveis no meio rural.
Quarto maior produtor de grãos do país, Goiás deve alcançar 38,4 milhões de toneladas na safra de 2025. Parte significativa desse volume gera resíduos ainda pouco aproveitados. O Agro-Energy GO busca mudar esse cenário ao oferecer soluções que reduzam custos com energia e fertilizantes, aumentem a autonomia energética dos produtores e criem novas oportunidades econômicas no campo, com um modelo replicável para propriedades de diferentes portes.
Além dos impactos econômicos e ambientais, o projeto também fortalece a produção científica e a formação de competências técnicas no estado. A pesquisa deve ampliar o conhecimento sobre o comportamento e a eficiência de substratos agrícolas na geração de biogás e biometano, com resultados disseminados por meio de workshops e publicações científicas. A expectativa é que esse conhecimento seja absorvido pela cadeia produtiva, contribuindo para a descarbonização do agronegócio goiano.
Marcelo Tete é coordenador do curso de Administração da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas (FACE/UFG), docente colaborador do Programa de Pós-Graduação em Administração e um dos fundadores do Centro de Excelência em Hidrogênio e Tecnologias Energéticas Sustentáveis (CEHTES), iniciativa apoiada pela Fapeg que reforça o protagonismo de Goiás na agenda de inovação e sustentabilidade.





