{"id":10481,"date":"2015-05-26T11:05:23","date_gmt":"2015-05-26T14:05:23","guid":{"rendered":"https:\/\/siteshom.goias.gov.br\/saude\/querem-matar-o-sus-2-embrasus-neles\/"},"modified":"2015-05-26T11:05:23","modified_gmt":"2015-05-26T14:05:23","slug":"querem-matar-o-sus-2-embrasus-neles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goias.gov.br\/saude\/querem-matar-o-sus-2-embrasus-neles\/","title":{"rendered":"Querem matar o SUS-2: EMBRASUS neles!"},"content":{"rendered":"<p><!DOCTYPE html PUBLIC \"-\/\/W3C\/\/DTD HTML 4.0 Transitional\/\/EN\" \"https:\/\/www.w3.org\/TR\/REC-html40\/loose.dtd\"><br \/>\n<html><body><\/p>\n<table style=\"width: 337px; height: 406px;\" border=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img decoding=\"async\" src=\"images\/imagens_migradas\/\" alt=\"\"><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><em><strong> Paulo Capel Narvai &#8211; professor titular de Sa&uacute;de P&uacute;blica da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP).<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><em><strong><br \/><\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>A tese de um sistema &uacute;nico de sa&uacute;de (SUS) como uma grande organiza&ccedil;&atilde;o unit&aacute;ria, de abrang&ecirc;ncia nacional, servi&ccedil;os de propriedade exclusivamente estatal e, portanto, profissionais de sa&uacute;de vinculados funcionalmente &agrave; administra&ccedil;&atilde;o direta do governo federal, n&atilde;o teve o apoio dos delegados &agrave; 8&ordf; Confer&ecirc;ncia Nacional de Sa&uacute;de, em 1986, e sequer foi cogitada por um n&uacute;mero significativo dos constituintes de 1988. Nos dois casos propunha-se a cria&ccedil;&atilde;o de um SUS sob controle p&uacute;blico, que assegurasse o direito de todos &agrave; sa&uacute;de, no contexto hist&oacute;rico de hegemonia burguesa e modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista. O SUS foi proposto, portanto, como uma pol&iacute;tica p&uacute;blica de sa&uacute;de, para uma sociedade capitalista &ndash; a que t&iacute;nhamos concretamente naquele per&iacute;odo no Brasil &ndash;, n&atilde;o para uma sociedade socialista. Na cabe&ccedil;a dos socialistas brasileiros do final do s&eacute;culo XX, o que seria um sistema de sa&uacute;de em uma sociedade socialista seria delineado no momento hist&oacute;rico oportuno.<\/p>\n<p>Desde ent&atilde;o, o desafio posto aos SUSistas, em suas batalhas contra os SUScidas, tem sido o de viabilizar o SUS, buscando criar e encontrar possibilidades para tornar fact&iacute;vel, no capitalismo feroc&iacute;ssimo que vige no Brasil, o direito universal &agrave; sa&uacute;de. Logo em seguida &agrave; cria&ccedil;&atilde;o do SUS ruiu a Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica e veio abaixo o Muro de Berlim. Com o fim da Guerra Fria vieram a restaura&ccedil;&atilde;o capitalista na China e no Vietn&atilde;, o &ldquo;per&iacute;odo especial&rdquo; em Cuba, as viradas em Angola e Mo&ccedil;ambique&hellip;<\/p>\n<p>Para o SUS vieram&hellip; as Organiza&ccedil;&otilde;es Sociais (OS).<\/p>\n<p>Neste ano em que realizamos a 15&ordf; Confer&ecirc;ncia Nacional de Sa&uacute;de, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em 16\/5\/15, que &eacute; constitucional que recursos p&uacute;blicos sejam transferidos para organiza&ccedil;&otilde;es sociais. Por 7 votos a 2, os ministros entenderam que entidades da &aacute;rea de sa&uacute;de e educa&ccedil;&atilde;o, por exemplo, podem receber dinheiro do governo para auxiliar na implementa&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas nas &aacute;reas em que atuam. A denominada Lei das Organiza&ccedil;&otilde;es Sociais (9.637\/98) teve voto favor&aacute;vel do ministro relator de uma a&ccedil;&atilde;o impetrada em 1998 que questionava, principalmente, a dispensa de licita&ccedil;&atilde;o em contratos entre a Uni&atilde;o e as OS. A decis&atilde;o do STF encerrou um debate que se estendeu por quase duas d&eacute;cadas, exigindo da Uni&atilde;o, e por analogia dos demais entes federativos que, ao contratarem OS, cuidem da observ&acirc;ncia dos crit&eacute;rios de fiscaliza&ccedil;&atilde;o previstos no Art. 37 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, que determina obedi&ecirc;ncia aos princ&iacute;pios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e efici&ecirc;ncia. A decis&atilde;o tamb&eacute;m confirma o poder do Minist&eacute;rio P&uacute;blico e do Tribunal de Contas da Uni&atilde;o (TCU) para fiscalizar a aplica&ccedil;&atilde;o dos recursos transferidos &agrave;s OS.<\/p>\n<p>As OS vieram, portanto, para ficar. Com a decis&atilde;o do STF ser&aacute; in&uacute;til bradar contra sua presen&ccedil;a no SUS.<\/p>\n<p>O que isto significa, por&eacute;m, para o SUS sob controle p&uacute;blico? As OS seriam a melhor op&ccedil;&atilde;o para organizar um sistema de sa&uacute;de como o SUS? O que significa transferir dinheiro p&uacute;blico para pessoas jur&iacute;dicas de propriedade particular? Quem s&atilde;o essas pessoas jur&iacute;dicas?<\/p>\n<p>A origem mais remota das OS brasileiras com atua&ccedil;&atilde;o na sa&uacute;de s&atilde;o as entidades beneficentes, criadas sobretudo na virada do s&eacute;culo 19 para o s&eacute;culo 20 e nas primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo passado. Criadas, portanto, em uma &eacute;poca hist&oacute;rica em que o Estado Brasileiro era do tipo liberal cl&aacute;ssico e negava tudo aos trabalhadores. Sem direitos (aposentadorias, pens&otilde;es, aux&iacute;lios&hellip;) e sem prote&ccedil;&atilde;o social confi&aacute;vel, os trabalhadores, notadamente os de imigra&ccedil;&atilde;o recente e seus descendentes, trataram de organizar entidades beneficentes para lhes proporcionar o que o Estado lhes recusava. Combinavam essas organiza&ccedil;&otilde;es com lutas gerais por direitos sociais, conforme &eacute; amplamente conhecido. Foi este movimento que deu origem, em S&atilde;o Paulo, ao Hospital de Benefic&ecirc;ncia Portuguesa (1859), ao Hospital Matarazzo (1878), &agrave; Sociedade Beneficente de Senhoras, embri&atilde;o do Hospital Sirio-Liban&ecirc;s (1921). E um pouco mais tarde, j&aacute; no contexto do p&oacute;s-Segunda Guerra Mundial, &agrave; Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein (1950). Essas OS, identificadas como organiza&ccedil;&otilde;es filantr&oacute;picas, obtinham fundos em sorteios, festas, bingos, doa&ccedil;&otilde;es. Ganharam terrenos e equipamentos. Conta-se que Hans, filho de Albert Einstein, doou dinheiro e um rel&oacute;gio do pai para ajudar nos esfor&ccedil;os de consolida&ccedil;&atilde;o daquela OS. Com exce&ccedil;&atilde;o do Hospital Matarazzo, que encerrou atividades nos anos 1990, essas OS vem sendo geridas segundo um padr&atilde;o &eacute;tico definido por seus criadores. Mant&eacute;m atualmente v&iacute;nculos com o SUS e prestam servi&ccedil;os p&uacute;blicos relevantes nas comunidades em que atuam. Conhe&ccedil;o e convivo com v&aacute;rios profissionais que trabalham nessas institui&ccedil;&otilde;es e sei do que falo.<\/p>\n<p>Contudo, essas OS pouco t&ecirc;m a ver com o que se v&ecirc; atualmente, em que muitas OS s&atilde;o de origem obscura, sem hist&oacute;ria social e de propriedade nebulosa, e amealham dinheiro p&uacute;blico em opera&ccedil;&otilde;es de gest&atilde;o sem transpar&ecirc;ncia e &agrave; margem de qualquer controle efetivo pelos conselhos de sa&uacute;de. S&atilde;o OS picaretas, que t&ecirc;m donos, os quais n&atilde;o veem conflito &eacute;tico em fazer neg&oacute;cios com o cuidado em sa&uacute;de. N&atilde;o as move o princ&iacute;pio &eacute;tico da caridade, da prote&ccedil;&atilde;o por meio da filantropia. S&atilde;o, conforme o jarg&atilde;o dos gestores da sa&uacute;de, entidades &ldquo;pilantr&oacute;picas&rdquo;. Como explicar, por exemplo, que uma OS com sede em S&atilde;o Paulo, assuma a gest&atilde;o de servi&ccedil;os, e at&eacute; mesmo de sistemas locais\/municipais, de sa&uacute;de em locais t&atilde;o distintos quanto cidades do interior paulista e mineiro, e mesmo Recife, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Natal?<\/p>\n<p>N&atilde;o obstante, as OS est&atilde;o seduzindo cora&ccedil;&otilde;es e mentes da maioria dos gestores do SUS, que creem ter encontrado, nelas, as solu&ccedil;&otilde;es para problemas administrativos, de gest&atilde;o de pessoal, compras, terceiriza&ccedil;&otilde;es e, sobretudo, para driblar os impedimentos da LRF &ndash; Lei de Responsabilidade Fiscal (101\/2000), cujos artigos 19 e 20 estabelecem que &ldquo;a despesa total com pessoal, em cada per&iacute;odo de apura&ccedil;&atilde;o e em cada ente da Federa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o poder&aacute; exceder os percentuais da receita corrente l&iacute;quida&rdquo; fixados em 50% para o governo federal (40,9% para o poder Executivo), 60% para os Estados (49% para o Executivo) e 60% para os munic&iacute;pios (54% para o Executivo). Essas restri&ccedil;&otilde;es &agrave;s despesas com pessoal atingem fortemente o setor Sa&uacute;de (e tamb&eacute;m a Educa&ccedil;&atilde;o) cujos or&ccedil;amentos s&atilde;o muito onerados (em torno de 70% a 80%) pelo item pessoal. Ou seja: ferem o SUS, asfixiando-o or&ccedil;amentariamente. Nesse contexto, transferir recursos para OS &eacute; visto como um &ldquo;jeitinho&rdquo; de contornar a lei. O &ldquo;jeitinho&rdquo; seduz SUSistas (aqueles que de fato agem para viabilizar o sistema) e SUScidas (aqueles que desde a cria&ccedil;&atilde;o do sistema, em 1988, lutam contra, sabotando-o e sucateando-o).<\/p>\n<p>Mas, um sistema como o SUS pode ser gerido com base em &lsquo;jeitinho&rsquo;? Com servi&ccedil;os e trabalhadores precarizados? Que tipo de edifica&ccedil;&atilde;o social se constr&oacute;i com base em tais &lsquo;puxadinhos&rsquo; organizativos? S&atilde;o perguntas que seguem sem respostas, enquanto o SUS sobrevive &agrave;s duras penas, subfinanciado, perdendo recursos a cada ano e, portanto, dispondo de servi&ccedil;os que comprometem a boa qualidade que se espera dos cuidados prestados pelo sistema.<\/p>\n<p>Nesse cen&aacute;rio, n&atilde;o surpreende a decis&atilde;o tomada pelo governo do Distrito Federal de, frente &agrave;s dificuldades de gest&atilde;o do SUS na capital da Rep&uacute;blica, &ldquo;ir ao governo de Goi&aacute;s para ver como funcionam as Organiza&ccedil;&otilde;es Sociais na sa&uacute;de goiana&rdquo;, conforme noticiaram os jornais neste m&ecirc;s.<\/p>\n<p>Em Goi&aacute;s e na maioria dos Estados e Munic&iacute;pios, as OS v&ecirc;m, crescentemente, ocupando o lugar da Administra&ccedil;&atilde;o Direta na gest&atilde;o do SUS. Contudo, conselheiros de sa&uacute;de de v&aacute;rios munic&iacute;pios t&ecirc;m denunciado algumas OS como empresas de fachadas, que abrigam a atua&ccedil;&atilde;o de bandidos e m&aacute;fias que v&atilde;o se especializando em roubar dinheiro p&uacute;blico. Essas pr&aacute;ticas s&atilde;o facilitadas porque n&atilde;o h&aacute;, de fato, controle p&uacute;blico sobre a atua&ccedil;&atilde;o dessas organiza&ccedil;&otilde;es. Os conselhos de sa&uacute;de n&atilde;o conseguem obter informa&ccedil;&otilde;es relevantes, sob a alega&ccedil;&atilde;o de que se trata de &ldquo;propriedade privada&rdquo;. As secretarias de sa&uacute;de n&atilde;o contam com pessoal suficiente (e bem pago&hellip;) para controlar efetivamente a atua&ccedil;&atilde;o das OS. Resta reclamar.<\/p>\n<p>Pelo lado dos usu&aacute;rios e dos trabalhadores da sa&uacute;de h&aacute; problemas para os quais as OS, tanto as &eacute;ticas quanto as picaretas, n&atilde;o representam solu&ccedil;&atilde;o alguma. Ao contr&aacute;rio, suas atua&ccedil;&otilde;es com suas &ldquo;autonomias de gest&atilde;o&rdquo; contribuem para aumentar esses problemas e comprometer o car&aacute;ter sist&ecirc;mico do SUS, em v&aacute;rios &acirc;mbitos. Para muitos trabalhadores da sa&uacute;de, e tamb&eacute;m para v&aacute;rios gestores mais atentos, as OS n&atilde;o s&atilde;o solu&ccedil;&atilde;o para os problemas estruturais de gest&atilde;o do SUS &ndash; que s&atilde;o justamente os principais problemas do sistema. Embora esses cr&iacute;ticos reconhe&ccedil;am que OS podem ser boa solu&ccedil;&atilde;o para gerir teatros e equipamentos culturais locais, n&atilde;o ajudam a resolver os problemas de gest&atilde;o do SUS. Podem, por&eacute;m, exercer importante fun&ccedil;&atilde;o na gest&atilde;o de iniciativas filantr&oacute;picas e, assim, t&ecirc;m lugar no SUS. Por essa raz&atilde;o, entendem que as OS &eacute;ticas devem ser respeitadas, bem como deve ser valorizado o trabalho que realizam.<\/p>\n<p>Mais recentemente tem tomado corpo o debate sobre a necessidade de se criar instrumentos que tornem vi&aacute;veis inst&acirc;ncias regionais de gest&atilde;o do SUS, que se ocupem de redes de aten&ccedil;&atilde;o e outros problemas de gest&atilde;o impostos pela integralidade do cuidado e o enfrentamento dos gargalos relativos &agrave; aten&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria e terci&aacute;ria, em situa&ccedil;&otilde;es que envolvem, necessariamente, conjuntos de munic&iacute;pios. O Brasil conta com cerca de 450 regi&otilde;es que podem e devem operar como polos regionais de sa&uacute;de que requerem a estrutura&ccedil;&atilde;o de &oacute;rg&atilde;os igualmente regionais de gest&atilde;o, envolvendo autoridades sanit&aacute;rias da Uni&atilde;o, Estados e respectivos munic&iacute;pios, e a representa&ccedil;&atilde;o dos conselhos municipais de sa&uacute;de das cidades que comp&otilde;em essas regi&otilde;es. Este &eacute; um problema estrat&eacute;gico de gest&atilde;o que ultrapassa, em muito, a &ldquo;solu&ccedil;&atilde;o-puxadinho&rdquo; representada pelo &ldquo;jeitinho&rdquo; das OS.<\/p>\n<p>Desde a cria&ccedil;&atilde;o do SUS est&aacute; aberto o debate sobre a necessidade de se criar e consolidar uma Carreira Nacional do SUS, com os trabalhadores da sa&uacute;de vinculando-se ao sistema, e n&atilde;o a esta ou aquela Prefeitura, a este ou aquele Governo Estadual. Mas atualmente s&atilde;o Prefeituras e Governos Estaduais que pagam os sal&aacute;rios desses profissionais, que se sentem, na maioria das vezes, &ldquo;funcion&aacute;rios da Prefeitura&rdquo; e n&atilde;o do SUS. Por outro lado, prefeitos e governadores fogem dessa conversa sobre Carreira Nacional do SUS como o diabo da cruz. Este &eacute; outro problema estrat&eacute;gico de gest&atilde;o, cr&ocirc;nico, que tamb&eacute;m ultrapassa, em muito, a &ldquo;solu&ccedil;&atilde;o-puxadinho&rdquo; representada pelo &ldquo;jeitinho&rdquo; das OS.<\/p>\n<p>Mas, com as OS seduzindo SUSistas e SUScidas, e com suas atua&ccedil;&otilde;es agora amparadas pela decis&atilde;o do STF, o que se deve fazer?<\/p>\n<p>Reitero que vejo lugar no SUS para as OS &eacute;ticas. Mas rejeito, frontalmente, as OS que, picaretas ou n&atilde;o, veem o SUS como apenas um neg&oacute;cio como outro qualquer e se consideram &ldquo;empresa privada&rdquo;. N&atilde;o vejo lugar no SUS para tais OS.<\/p>\n<p>O que fazer?<\/p>\n<p>Seguir desenvolvendo a administra&ccedil;&atilde;o direta, modernizando-a, aprimorando e valorizando as carreiras da Uni&atilde;o, Estados e Munic&iacute;pios, investindo e qualificando os servidores p&uacute;blicos, pagando-os bem. Mas, enquanto a administra&ccedil;&atilde;o direta estiver sob os ditames do Decreto-Lei 200, de 1967, e seus derivados legais, n&atilde;o conseguir&aacute; lidar adequadamente com as exig&ecirc;ncias da gest&atilde;o do SUS. S&atilde;o m&iacute;nimas, por outro lado, as possibilidades de revers&atilde;o das restri&ccedil;&otilde;es impostas pela LRF. Ainda que se consiga viabilizar a taxa&ccedil;&atilde;o sobre grandes fortunas e ampliar os recursos fiscais e do or&ccedil;amento da previd&ecirc;ncia para o SUS, colocando-os em patamares similares ao de pa&iacute;ses da Europa Ocidental (cerca de 7% do PIB), ainda que se viabilize a conquista dos 10% das receitas correntes brutas da Uni&atilde;o, mesmo que se consiga excluir os recursos da sa&uacute;de da Desvincula&ccedil;&atilde;o de Receitas da Uni&atilde;o (DRU), ainda assim n&atilde;o se resolver&atilde;o os problemas estrat&eacute;gicos que mencionei (o da gest&atilde;o regional e a carreira nacional), dentre outros. Mesmo que se consiga conter a sangria representada pela ren&uacute;ncia fiscal, via Imposto de Renda, em favor das empresas que vendem contratos coletivos de sa&uacute;de e negociam a&ccedil;&otilde;es na bolsa de valores, revertendo esses recursos para o financiamento do SUS, mesmo assim persistir&atilde;o, dentre outros, os dois problemas estrat&eacute;gicos da gest&atilde;o regional e da carreira SUS. Solu&ccedil;&otilde;es por dentro da administra&ccedil;&atilde;o direta, como autarquias e funda&ccedil;&otilde;es estatais, esbarram na LRF e no Decreto-Lei 200 e seus filhotes normativos-burocr&aacute;ticos.<\/p>\n<p>O que fazer, ent&atilde;o?<\/p>\n<p>Ora, se o grande trunfo das OS &eacute; poder comprar e contratar com a agilidade requerida pelos gestores da sa&uacute;de, vamos criar uma empresa estatal para o SUS, de abrang&ecirc;ncia nacional, sem fins lucrativos, nos moldes de outras empresas estatais, como os Correios, que sejam controladas pelos poderes do Estado e tamb&eacute;m pelas inst&acirc;ncias do controle social, e que possam comprar e contratar. Criar, desse modo, uma alternativa p&uacute;blica &agrave; privatiza&ccedil;&atilde;o que as OS representam. N&atilde;o seria uma empresa do tipo sociedade an&ocirc;nima, como o Banco do Brasil e a Petrobr&aacute;s, por exemplo, mas poderia ter as caracter&iacute;sticas dos Correios, que realiza compras segundo regras p&uacute;blicas e contrata pela CLT, mediante processos seletivos p&uacute;blicos e sob amparo da legisla&ccedil;&atilde;o trabalhista.<\/p>\n<p>Uma tal empresa de propriedade estatal teria como miss&atilde;o &ldquo;apoiar o desenvolvimento da gest&atilde;o do SUS em todo o Brasil&rdquo;, na perspectiva de um compromisso &eacute;tico-pol&iacute;tico com os princ&iacute;pios constitucionais da universalidade, integralidade e equidade. Seria uma empresa do SUS e para o SUS e que teria de conviver, harm&ocirc;nica e sistemicamente, com as institui&ccedil;&otilde;es da administra&ccedil;&atilde;o direta federal, estadual e municipal. Por isso, para simplificar a comunica&ccedil;&atilde;o, poder&iacute;amos denomin&aacute;-la de EMBRASUS, ou algo assim.<\/p>\n<p>&Agrave; EMBRASUS seriam destinados, integralmente, os recursos provenientes da CPSUS, a Contribui&ccedil;&atilde;o para o Financiamento do SUS (ver artigo que trata especificamente da CPSUS, intitulado &ldquo;<a href=\"https:\/\/cebes.org.br\/2015\/05\/querem-matar-o-sus-cpsus-neles\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Querem matar o SUS: CPSUS neles!<\/a>&rdquo;) e a empresa ficaria incumbida, em linhas gerais, de contratar e disponibilizar profissionais de sa&uacute;de para as institui&ccedil;&otilde;es do SUS, de qualquer ente federativo, bem como comprar os equipamentos e insumos de que o sistema necessite. Se os Correios (e o Banco do Brasil, a Caixa Econ&ocirc;mica Federal etc.) s&atilde;o capazes de manter carreiras nacionais e gerir equipamentos e recursos em todo o territ&oacute;rio nacional, por certo que a EMBRASUS tamb&eacute;m o seria. Desse modo, a EMBRASUS rompe com o localismo e o regionalismo que marca a atua&ccedil;&atilde;o das OS e, dado o porte econ&ocirc;mico inerente &agrave; empresa, ser&aacute; potente o suficiente para enfrentar a disputa pelo futuro do SUS. Em bases &eacute;ticas, recusando a transforma&ccedil;&atilde;o do cuidado de sa&uacute;de em mercadoria, viabilizando o trabalho decente e a Carreira Nacional do SUS (na qual o trabalho em sa&uacute;de seja visto tamb&eacute;m em sua dimens&atilde;o de coletivos de trabalhadores que devem ser protagonistas do SUS), criando as condi&ccedil;&otilde;es para cogest&atilde;o regional do SUS, opondo-se &agrave; precariza&ccedil;&atilde;o dos ambientes e rela&ccedil;&otilde;es de trabalho e tendo sua atua&ccedil;&atilde;o controlada por conselhos de sa&uacute;de e demais organismos interfederativos de gest&atilde;o, como as comiss&otilde;es tripartite e bipartite, envolvendo a Uni&atilde;o, Estados e Munic&iacute;pios, representados pelos Conselhos de Sa&uacute;de dos Estados (CONASS) e munic&iacute;pios (CONASEMS).<\/p>\n<p>&Eacute; poss&iacute;vel seguir abrindo m&atilde;o de uma solu&ccedil;&atilde;o nos termos da EMBRASUS. Mas &eacute; preciso avaliar com cuidado a quem isto interessa e as consequ&ecirc;ncias para as expectativas e necessidades da popula&ccedil;&atilde;o brasileira e, portanto, para o projeto do SUS, no contexto hist&oacute;rico das primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XXI.<br \/><em><strong><\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>PAULO CAPEL NARVAI <br \/><\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/cebes.org.br\/2015\/05\/querem-matar-o-sus-2-embrasus-neles\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cebes<\/a><\/p>\n<p><\/body><\/html><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Capel Narvai &#8211; professor titular de Sa&uacute;de P&uacute;blica da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). 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