

{"id":60483,"date":"2018-02-15T09:35:16","date_gmt":"2018-02-15T11:35:16","guid":{"rendered":"https:\/\/goias.gov.br\/policiacivil\/?p=60483"},"modified":"2018-02-15T09:39:12","modified_gmt":"2018-02-15T11:39:12","slug":"violencia-e-totalidade-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goias.gov.br\/policiacivil\/violencia-e-totalidade-social\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia e totalidade social"},"content":{"rendered":"<p><a href=\" https:\/\/goias.gov.br\/policiacivil\/wp-content\/uploads\/sites\/71\/2018\/02\/clodoaldo.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-60484\" src=\" https:\/\/goias.gov.br\/policiacivil\/wp-content\/uploads\/sites\/71\/2018\/02\/clodoaldo.jpg\" alt=\"\" width=\"164\" height=\"229\" \/><\/a>VIOL\u00caNCIA E TOTALIDADE SOCIAL<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por Clodoaldo Bastos*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O caos reina&#8221;. Essa frase parece ser tirada da fala da raposa no filme &#8216;Anticristo&#8217;, de Lars Von Trier, e esse \u00e9 o sentimento coletivo imerso em not\u00edcias sanguinolentas, chocantes e sensacionalistas disseminadas pelas m\u00eddias escritas, televisionadas, no ciberespa\u00e7o da internet, e mesmo no \u201cboca a boca\u201d, nos bares, escolas, locais de trabalho e no lar. A viol\u00eancia \u00e9 assunto preponderante nas rodas de conversas, notici\u00e1rios de jornais, programas eleitorais; \u00e9 a coqueluche do momento. Mas o que \u00e9 viol\u00eancia, e como ela se d\u00e1 na totalidade social?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra viol\u00eancia traz a ideia da profana\u00e7\u00e3o, no sentido religioso, e de transgress\u00e3o, no sentido jur\u00eddico. A viol\u00eancia pressup\u00f5e rela\u00e7\u00e3o, algo \u00e9 atingido, violado por outro, por\u00e9m isso n\u00e3o pode ser dito da natureza, pois \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o social, e n\u00e3o natural, ela se d\u00e1 entre pessoas, onde uma, ou v\u00e1rias pessoas, imp\u00f5em algo a outra pessoa, ou pessoas, contra sua vontade. Como bem colocou o soci\u00f3logo Nildo Viana em seu artigo &#8216;Viol\u00eancia, Conflito e Controle&#8217;, \u201cpodemos ent\u00e3o definir a viol\u00eancia como rela\u00e7\u00e3o social caracterizada pela imposi\u00e7\u00e3o realizada por um indiv\u00edduo ou grupo social a outro indiv\u00edduo ou grupo social contra sua vontade \u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conceituar n\u00e3o basta para desenrolar esse novelo que obnubila e obstaculiza um entendimento mais clarividente do problema. Temos que avan\u00e7ar na discuss\u00e3o. H\u00e1 um debate sobre o car\u00e1ter natural e social da viol\u00eancia, h\u00e1 aqueles que corroboram com a ideia da viol\u00eancia enquanto algo natural, instintual, e aqueles que a v\u00eaem como social, cultural e hist\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro grupo temos autores como Freud, que naturaliza a viol\u00eancia: para o mesmo h\u00e1 o instinto de morte, Tanatos, que luta com o instinto de Eros, o er\u00f3tico. Nessa perspectiva a agressividade \u00e9 instintual, pr\u00f3pria da natureza humana. Outro intelectual que dialoga com essa ideia natural de viol\u00eancia \u00e9 o ingl\u00eas Thomas Hobbes, autor do cl\u00e1ssico da filosofia pol\u00edtica &#8216;O Leviat\u00e3&#8217;. Hobbes relata em sua obra que o ser humano \u00e9 naturalmente violento e ego\u00edsta e com isso justifica a necessidade de um Estado forte e autorit\u00e1rio para barrar essa agressividade nata dos humanos, pois \u201co homem \u00e9 lobo do homem\u201d. Sem esse Estado forte e absolutista poder\u00edamos voltar ao estado de natureza de guerra de todos contra todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra perspectiva nesse caleidosc\u00f3pio textual \u00e9 o da viol\u00eancia originada do social. Aqui ela \u00e9 vista como fato social. Nesse diapas\u00e3o tem destaque Durkheim, soci\u00f3logo que defende que o todo \u00e9 maior que a soma das partes e que d\u00e1 total primazia da estrutura social sobre os indiv\u00edduos. A abordagem dele mostra a solidariedade como algo central, seja a mec\u00e2nica, onde a individualidade \u00e9 pequena (exemplo das tribos ind\u00edgenas), ou da sociedade industrial moderna, chamada de org\u00e2nica, com uma maior individualidade e divis\u00e3o social do trabalho. Para o soci\u00f3logo franc\u00eas, o crime \u00e9 uma ofensa aos sentimentos fortes da coletividade, quando atinge n\u00edveis intoler\u00e1veis h\u00e1 anomia, fraqueza das institui\u00e7\u00f5es e moral, nesse caso ouve falha na regula\u00e7\u00e3o, no controle social. A viol\u00eancia aqui \u00e9 vista como um estado de anomia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teoria materialista hist\u00f3rica e o m\u00e9todo dial\u00e9tico de Marx partem das rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o, das rela\u00e7\u00f5es concretas, para analisar a sociedade. Nela, o conflito de classes faz surgir o controle social, dentre ele o Estado, que regulamentar\u00e1 as rela\u00e7\u00f5es sociais, com seus conflitos e viol\u00eancia. Por\u00e9m, o pr\u00f3prio Estado, detentor do monop\u00f3lio da viol\u00eancia, nas palavras de Max Weber, ser\u00e1 gerador de viol\u00eancia, como no caso das desapropria\u00e7\u00f5es de ocupa\u00e7\u00f5es urbanas e rurais, criminaliza\u00e7\u00e3o de movimentos sociais e etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a teoria marxista constatamos tamb\u00e9m que a separa\u00e7\u00e3o do proletariado dos meios de produ\u00e7\u00e3o, a precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais com o aumento do ex\u00e9rcito de reserva, o lupemproletariado, o aumento das desigualdades sociais levam ao aumento da viol\u00eancia, da procura pelo ganho f\u00e1cil e pela agressividade nessa busca. N\u00e3o podemos aqui corroborar com o determinismo de que a pobreza \u00e9 causa do crime e viol\u00eancia, mas sim a desigualdade, o aumento da dist\u00e2ncia entre ricos e pobres, homens e mulheres, brancos e negros; claro que o estado de mis\u00e9ria, m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de vida condicionam tamb\u00e9m o aumento do crime e da viol\u00eancia, mas n\u00e3o se reduz \u00e0 pobreza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida, a burocracia e o sentimento de competi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m levam ao aumento da criminalidade e viol\u00eancia. Veja a competi\u00e7\u00e3o no tr\u00e2nsito ligado ao estresse das grandes cidades relacionando \u00e0 viol\u00eancia com atropelamentos, assassinatos em brigas de tr\u00e2nsito. Mesmo entre ricos \u00e9 poss\u00edvel vermos a mercantiliza\u00e7\u00e3o, competi\u00e7\u00e3o e busca por status influenciando a vida criminosa; n\u00e3o basta ser rico, tenho que ter mais que o outro, tenho que ter a vida que a publicidade vende e acesso aos bens mercantilizados, que s\u00f3 posso ter ganhando muito dinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 a viol\u00eancia mais passional, como a viol\u00eancia contra a mulher, racismo, homofobia, tem rela\u00e7\u00e3o com a desigualdade e luta de classes que se somam \u00e0 educa\u00e7\u00e3o machista, racista, a problemas psicol\u00f3gicos, \u00e0 hist\u00f3ria de vida dos indiv\u00edduos, dentre outros fatores. Como n\u00e3o notar a rela\u00e7\u00e3o entre desigualdade no mercado de trabalho, de oportunidade como uma das determinantes da viol\u00eancia contra o sexo feminino?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 natural, ela \u00e9 fruto das rela\u00e7\u00f5es sociais, da luta de classes, da desigualdade, da domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 fruto, de m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es do social, mas a fundamental \u00e9 a desigualdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim poder\u00edamos concluir que n\u00e3o basta investir apenas em policiamento, seja ostensivo de patrulhamento, ou o de investiga\u00e7\u00e3o, pois esses lidam apenas com as consequ\u00eancias, e n\u00e3o com as causas da viol\u00eancia e criminalidade; eles n\u00e3o v\u00e3o ao \u00e2mago dos problemas da viol\u00eancia, que tem suas ra\u00edzes na desigualdade social, na competi\u00e7\u00e3o da sociedade capitalista, na falta de oportunidades e educa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, a precariedade e mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida humana, tendo essa deixado de ter dignidade, valendo por si mesma, tendo agora pre\u00e7o como qualquer outra mercadoria do mercado, como diria Kant, tamb\u00e9m contribui para o aumento da viol\u00eancia e criminalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entendendo o que \u00e9 a viol\u00eancia e suas causas, entendemos tamb\u00e9m que o problema passa pela totalidade social, e n\u00e3o apenas em sua fragmenta\u00e7\u00e3o, seja ao investimento em educa\u00e7\u00e3o, policiamento ou outra medida separada, fragmentada e sem a teleologia de mudan\u00e7a social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>* Agente de pol\u00edcia civil de 1\u00aa classe, graduado em hist\u00f3ria (UEG), mestrando em sociologia (UFG); nas horas vagas, cin\u00e9filo e blogueiro (http:\/\/clodoaldobastos.blogspot.com.br\/).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VIOL\u00caNCIA E TOTALIDADE SOCIAL Por Clodoaldo Bastos* &#8220;O caos reina&#8221;. 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