Entre telas e emoções: AGR promove mergulho profundo sobre saúde mental e os desafios da era digital

Em uma tarde de reflexões e trocas, psicóloga detalha como os algoritmos operam, aponta os gatilhos emocionais e ensina o uso de “EPIs virtuais” para proteger o bem-estar

Quem nunca entrou em uma rede social apenas para ver um vídeo curto e, de repente, se viu consumindo notícias de tragédias ou fofocas, perdendo horas preciosas do dia sem nem perceber? Foi para debater essa exaustão moderna e os impactos invisíveis no nosso bem-estar que a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) e o Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (Sesmt) da Agência Goiana de Regulação (AGR) reuniram os servidores na tarde de terça-feira (24/03), no auditório da agência.

A recepção e a abertura do evento reforçaram o caráter acolhedor do encontro, evidenciando o cuidado interno com as equipes. Os trabalhos foram iniciados pelos membros da Cipa — a presidente Thaís Camilo, a vice-presidente Marcela Faleiro, a secretária Kezia Daiane e o servidor Paulo Henrique Oliveira —, juntamente com o integrante do Sesmt, o técnico de segurança do trabalho Jeremias Vieira. A equipe organizadora deu as boas-vindas aos presentes, destacando o compromisso das comissões em olhar para a saúde do servidor de forma integral.

A palestra foi conduzida pela psicóloga Tainá Torres, especialista em Saúde Mental e Gestalt-terapia e representante do Hospital Espírita Eurípedes Barsanulfo. Longe de um tom de superioridade, ela se apresentou como usuária ativa das redes e profissional que também enfrentam os conflitos do mundo digital. O bate-papo interativo destacou que as instituições agora precisam lidar com os riscos psicossociais da mesma forma que tratam os físicos e biológicos, exigindo novos tipos de proteção.

Tainá explicou que a rede social atua, muitas vezes, como um gatilho que dispara feridas emocionais que já carregamos. Em seu consultório clínico, os pacientes raramente chegam culpando a internet diretamente, mas trazem queixas de distanciamento nas relações e ansiedade. As redes intensificam esses problemas ao nos bombardear com comparações irreais. “Essas comparações frequentes afetam a nossa autoestima, que é o quanto a gente se gosta. As redes intensificam a comparação social e afetam a forma como a gente se vê e a forma como a gente se dá valor”, alertou a psicóloga.

Outro ponto alto da tarde foi a desmitificação de como as plataformas nos prendem. A especialista comparou o funcionamento das redes ao de um cassino. “As redes sociais também usam o mecanismo de recompensas intermitentes, inesperadas. Assim como no cassino, você nunca sabe quando vai ganhar, mas a sensação de ter ganho uma vez te faz querer continuar lá”, disse Tainá. O algoritmo aprende nosso comportamento e é programado para nos manter conectados.

Com isso, perdemos o tempo das nossas atividades “off-line”, que são vitais para o sentimento de utilidade e para a saúde mental. Para se proteger nesse mar de estímulos, a conversa rendeu frutos práticos: a adoção de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) mentais. “Quando o risco é invisível como é que você se protege dele? A gente também precisa se proteger e saber em que campos está entrando. O que que a gente precisa usar de EPIs?”, provocou a palestrante, fazendo um paralelo direto com a segurança do trabalho.

Entre as orientações de higiene digital ensinadas para compor esse “EPI virtual”, destacaram-se: questionar as próprias emoções antes de abrir o aplicativo, silenciar perfis que causam mal-estar, ocultar o número de curtidas para não depender de validação alheia e treinar o algoritmo clicando em “não tenho interesse” no que faz mal.

A psicóloga ressaltou o valor de se criar esses espaços de diálogo no ambiente corporativo. Segundo ela, embora muitos já tenham noção dos impactos negativos das redes, a grande dificuldade está em transformar isso em planejamento e ação para melhorar essa relação. “Quando acontecem momentos como esse, oportunidades como essa, de despertar reflexões, isso tem uma chance muito grande de também ampliar a consciência e fortalecer as pessoas para assumirem mais responsabilidades sobre o seu autocuidado”, destacou.

A psicóloga lembrou aos servidores que o caminho não é o banimento digital, mas ,sim, a adaptação madura. “Não tem como hoje a gente ignorar ou voltar atrás em relação às redes sociais, elas estão aí para ficar”. O grande desafio, pontuou, é reconhecer que essas ferramentas se tornarão cada vez mais estimulantes e, por isso, nós é que precisamos estar mais preparados para não cair em suas armadilhas.

O encontro foi marcado pela participação contínua e a troca de experiências. Ao final, a palestrante reforçou que as instituições e os gestores também têm o dever de proteger as equipes, evitando ser um problema virtual com grupos inconvenientes e mensagens de trabalho fora de hora.

A mensagem que ecoou nos corredores da AGR após as ricas reflexões foi um recado direto para a sociedade: “Vamos nos fortalecer psicologicamente para aproveitar o melhor que elas têm para oferecer”. Afinal, como resumiu de forma cirúrgica, “a verdadeira mudança começa quando olhamos para a nossa rotina e percebemos que o problema não é só o excesso de tela, é a falta de vida fora dela”.

Por: Michael Deus

Agência Goiana de Regulação, Controle e Fiscalização dos Serviços Públicos (AGR) – Governo de Goiás

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