

{"id":14754,"date":"2020-04-16T18:30:26","date_gmt":"2020-04-16T21:30:26","guid":{"rendered":"https:\/\/siteshom.goias.gov.br\/abc\/diario-do-isolamento-xxi-lembrancas-de-um-imaginario-em-serie\/"},"modified":"2020-04-16T18:30:26","modified_gmt":"2020-04-16T21:30:26","slug":"diario-do-isolamento-xxi-lembrancas-de-um-imaginario-em-serie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/diario-do-isolamento-xxi-lembrancas-de-um-imaginario-em-serie\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio do Isolamento XXI \u2013 \u201cLembran\u00e7as de um imagin\u00e1rio em s\u00e9rie\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-14753\" src=\"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/04\/DIARIO_1604-fb8.png\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/04\/DIARIO_1604-fb8.png 1280w, https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/04\/DIARIO_1604-fb8-300x169.png 300w, https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/04\/DIARIO_1604-fb8-1024x576.png 1024w, https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/04\/DIARIO_1604-fb8-768x432.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/p>\n<p>Penso em como estar&atilde;o reagindo as crian&ccedil;as de hoje aos efeitos e not&iacute;cias da pandemia, como isso pode afetar suas cabecinhas<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Nos fins dos anos 70, minha fam&iacute;lia comprou uns terrenos l&aacute; para os lados do nordeste de Goi&aacute;s. Era uma fazenda enorme, aproximados mil alqueires (goiano, de 4,84 hectares cada). Lembro que, quando algu&eacute;m perguntava para meu pai o tamanho da parte que lhe cabia, respondia, meio na mod&eacute;stia, meio na goza&ccedil;&atilde;o: &ldquo;Ah, &eacute; uma terrinha, n&atilde;o &eacute; muita coisa&rdquo; (s&oacute; depois, se a pessoa insistisse na metragem correta &eacute; que ele a definia). Mas n&atilde;o deixava de ser verdade, uma vez que divis&atilde;o era de 100 alqueires para meu pai e os 900 restantes de propriedade de meu tio-av&ocirc;.<\/p>\n<p>Na herdade de meu tio-av&ocirc; havia ficado tamb&eacute;m a sede original da fazenda, com currais, pai&oacute;is, galp&atilde;o e at&eacute; uma mini serraria. Junto, vinha tamb&eacute;m uma matilha de c&atilde;es de ca&ccedil;a e um vaqueiro faz tudo que atendia pela alcunha de Alem&atilde;o.<\/p>\n<p>Ele era uma mistura de Mad Max com Pedro Malasartes; sabia tudo de motores, armas &ndash; chegava a montar algumas com partes de outras &ndash; curar feridas dos animais dom&eacute;sticos e os h&aacute;bitos dos selvagens, melhores hor&aacute;rios para pesca, as iscas mais eficientes, enfim, era do tipo de cara que saia para o mato s&oacute; com um canivete na sexta e voltava na segunda com um porco-do-mato nos ombros, perguntando onde era o melhor lugar para fazer a fogueira. O t&iacute;pico her&oacute;i de filme de a&ccedil;&atilde;o, sem tirar nem por.&nbsp;<\/p>\n<p>Foi por conta disso que eu, menino que nada conhecia do mundo mas imaginava o dobro de tudo, fiquei estarrecido ao saber da morte dele. Quem teria sido barra pesada o bastante para derrotar o Alem&atilde;o, qual animal selvagem o teria atacado? Naquelas &eacute;pocas ainda havia por l&aacute; muitas on&ccedil;as pintadas, manadas de queixadas, cobra ent&atilde;o, nem se fala.<\/p>\n<p>&minus; A Maleita que matou ele! &ndash; Foi o que disse minha m&atilde;e, ao explicar para o meu pai que fim tinha levado o pobre rapaz.&nbsp;<\/p>\n<p>A partir dali, toda vez que fosse fazer alguma coisa, uma variante dessa frase reverberava em minha cabe&ccedil;a: &ldquo;Cuidado com a Maleita&rdquo;, &ldquo;Entra n&atilde;o, que a Maleita t&aacute; a&iacute;!&rdquo;, &ldquo;Vixe, corre que l&aacute; vem a Maleita!&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n<p>Essa tal Maleita, que em minha meninice nem sabia quem era essa dona poderia ser, estava me tirando o sono. Cheguei a engolir o orgulho e perguntar para meu irm&atilde;o, mas ele s&oacute; resmungou um &ldquo;Uai, Maleita &eacute; a Maleita! Pergunta besta&rdquo;.<\/p>\n<p>Meu drama s&oacute; foi amenizado quando obtive a informa&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s de um de meus melhores amigos na inf&acirc;ncia (e por toda a vida): veio por meio de um livro. L&aacute; constava que Maleita era um dos nomes pelos quais era conhecida a Mal&aacute;ria ou Impaludismo. &ldquo;Ent&atilde;o o Alem&atilde;o morreu foi de doente!&rdquo; minha l&oacute;gica infantil ficou bem satisfeita, porque o medo era de morrer de on&ccedil;a ou de sucuri, mas mal&aacute;ria n&atilde;o dava medo, porque era febre e essa a gente tinha quase todo dia, ou sempre que tomava banho de chuva.&nbsp;<\/p>\n<p>Penso em como estar&atilde;o reagindo as crian&ccedil;as de hoje aos efeitos e not&iacute;cias da pandemia, como isso pode afetar suas cabecinhas. Claro que elas t&ecirc;m acesso a muito mais informa&ccedil;&atilde;o do que a gente tinha nos rinc&otilde;es de &eacute;pocas distantes, e naqueles tempos de comunica&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria, o que n&atilde;o t&iacute;nhamos de informes complet&aacute;vamos com um tanto bom de imagina&ccedil;&atilde;o. E t&atilde;o treinada foi a minha imagina&ccedil;&atilde;o, que chego a ouvir, l&aacute; do passado, aquela voz que me amedrontou tanto, s&oacute; que atualizada: &ldquo;Cuidado com o Corona&rdquo;, &ldquo;Entra n&atilde;o, que o Corona t&aacute; a&iacute;!&rdquo;, &ldquo;Vixe, corre que l&aacute; vem o Corona!&rdquo;&#8230;&nbsp;<\/p>\n<p>Mas logo me vem a certeza que estamos muito mais avan&ccedil;ados cientificamente em compara&ccedil;&atilde;o &agrave;quelas &eacute;pocas e que dentro em breve tudo estar&aacute; mais calmo, tanto que, para crian&ccedil;as como Heitor Augusto, o filho de meu primo que nasceu dias atr&aacute;s, pode calhar de s&oacute; conhecer o &ldquo;tal Corona&rdquo;, por livros ou filmes. &Eacute; o que imagino agora.&nbsp;<\/p>\n<p>Fiquem seguros.<\/p>\n<p><em>Texto: Cristiano Deveras\/ABC Digital<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Penso em como estar&atilde;o reagindo as crian&ccedil;as de hoje aos efeitos e not&iacute;cias da pandemia, como isso pode afetar suas cabecinhas<\/p>\n","protected":false},"author":249,"featured_media":14599,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-14754","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"rttpg_featured_image_url":{"full":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/DIARIO_ISOLAMENTO_16x9-bcb.jpg",1280,720,false],"landscape":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/DIARIO_ISOLAMENTO_16x9-bcb.jpg",1280,720,false],"portraits":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/DIARIO_ISOLAMENTO_16x9-bcb.jpg",1280,720,false],"thumbnail":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/DIARIO_ISOLAMENTO_16x9-bcb-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/DIARIO_ISOLAMENTO_16x9-bcb-300x169.jpg",300,169,true],"large":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/DIARIO_ISOLAMENTO_16x9-bcb-1024x576.jpg",1024,576,true],"1536x1536":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/DIARIO_ISOLAMENTO_16x9-bcb.jpg",1280,720,false],"2048x2048":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/DIARIO_ISOLAMENTO_16x9-bcb.jpg",1280,720,false]},"rttpg_author":{"display_name":"alessandrobernardes","author_link":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/author\/alessandrobernardes\/"},"rttpg_comment":0,"rttpg_category":"<a href=\"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/categoria\/institucional\/noticias\/\" rel=\"category tag\">Not\u00edcias<\/a>","rttpg_excerpt":"Penso em como estar&atilde;o reagindo as crian&ccedil;as de hoje aos efeitos e not&iacute;cias da pandemia, como isso pode afetar suas cabecinhas","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14754","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/users\/249"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14754"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14754\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14599"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14754"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14754"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14754"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}