
{"id":14724,"date":"2020-04-10T18:02:54","date_gmt":"2020-04-10T21:02:54","guid":{"rendered":"https:\/\/siteshom.goias.gov.br\/abc\/memoria-de-medos-doutros-tempos-doenca-de-chagas-uma-velha-desconhecida\/"},"modified":"2020-04-10T18:02:54","modified_gmt":"2020-04-10T21:02:54","slug":"memoria-de-medos-doutros-tempos-doenca-de-chagas-uma-velha-desconhecida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/memoria-de-medos-doutros-tempos-doenca-de-chagas-uma-velha-desconhecida\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria de Medos d\u2019Outros Tempos: Doen\u00e7a de Chagas, uma velha desconhecida"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-14635\" src=\"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/MEMORIA_DE_MEDOS-2c0.jpeg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/MEMORIA_DE_MEDOS-2c0.jpeg 1280w, https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/MEMORIA_DE_MEDOS-2c0-300x169.jpeg 300w, https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/MEMORIA_DE_MEDOS-2c0-1024x576.jpeg 1024w, https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/MEMORIA_DE_MEDOS-2c0-768x432.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/p>\n<p>Pode n&atilde;o ser uma cena catastr&oacute;fica como aquelas gravadas nas mem&oacute;rias sobre grandes epidemias, mas a Doen&ccedil;a de Chagas &eacute; uma doen&ccedil;a que matou a muitos (e durante muito tempo) num engasgo<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Quando falamos dos medos que adv&ecirc;m da ocorr&ecirc;ncia de doen&ccedil;as, nos vem &agrave; mente o terror que acomete as pessoas quando presenciam uma vaga de mortes inexplic&aacute;veis em um curto espa&ccedil;o de tempo. O volume de caix&otilde;es e de internados, o badalar constante dos sinos a anunciar missas em mem&oacute;ria dos falecidos e o choro constante daqueles que perderam seus entes queridos de forma veloz e feroz cala fundo na mem&oacute;ria dos indiv&iacute;duos e criam imagens realmente aterradoras. Contudo as doen&ccedil;as end&ecirc;micas, que perduram no tempo e no espa&ccedil;o, causam um medo difuso, de longo termo, que fazem as pessoas sentirem a dor da perda, mas numa forma mais atenuada, colocando tais desaparecimentos na ordem do cotidiano, do comum, do dia a dia. Tal condi&ccedil;&atilde;o fica ainda mais presente quando n&atilde;o existe uma designa&ccedil;&atilde;o clara, definitiva sobre o que acomete as pessoas. As endemias fazem com que os indiv&iacute;duos convivam com a dita doen&ccedil;a de modo que ela n&atilde;o parece t&atilde;o devastadora, mesmo que seja a causa de muitas mortes no acumulado dos anos, pois elas est&atilde;o distribu&iacute;das ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Goi&aacute;s era conhecido no s&eacute;culo XIX e in&iacute;cio do XX como um lugar de febres e doen&ccedil;as espalhadas por toda parte. Internamente, a oposi&ccedil;&atilde;o entre litoral e sert&atilde;o se pautava, entre outras coisas, pela oposi&ccedil;&atilde;o civilizado\/arcaico, vista como sanit&aacute;ria e cultural. J&aacute; no plano internacional, o pa&iacute;s como um todo era visto como um grande reservat&oacute;rio de doen&ccedil;as, ao ponto de algumas companhias mar&iacute;timas oferecerem viagens entre a Europa e a Argentina (Buenos Aires recebe grandes contingentes migrat&oacute;rios nos fins do s&eacute;culo XIX) sem escalas no Brasil, em especial no Rio de Janeiro (naquele tempo, existia o dito popular &ldquo;O Rio de Janeiro &eacute; lindo de se ver&hellip; de longe&rdquo;). O Brasil era tido como um imenso hospital.<\/p>\n<p>Nesse cen&aacute;rio, fortaleceu-se toda uma produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica que buscava entender e controlar as doen&ccedil;as que dizimavam silenciosamente popula&ccedil;&otilde;es inteiras. O Brasil faz grandes avan&ccedil;os e campanhas contra mal&aacute;ria, febre amarela, dengue e c&oacute;lera tomam conta do pa&iacute;s, sob a inten&ccedil;&atilde;o de modernizar e civilizar o povo e a na&ccedil;&atilde;o. Cidades foram &ldquo;reformadas&rdquo; para acabar com os &ldquo;ares e &aacute;guas p&uacute;tridas&rdquo; e espa&ccedil;os de trabalho foram modificados sob a orienta&ccedil;&atilde;o de m&eacute;dicos como Oswaldo Cruz e Carlos Chagas. E &eacute; durante a constru&ccedil;&atilde;o da expans&atilde;o da Ferrovia Central do Brasil rumo a Minas Gerais que Carlos Chagas, durante campanha de erradica&ccedil;&atilde;o da mal&aacute;ria no canteiro de obras da FCB, descobre uma nova doen&ccedil;a que afetava grande parte da popula&ccedil;&atilde;o local, que causava incha&ccedil;o de &oacute;rg&atilde;os como o cora&ccedil;&atilde;o, o es&ocirc;fago ou o intestino. Essa doen&ccedil;a tornou-se conhecida como Doen&ccedil;a de Chagas, por ter sido descrita pelo m&eacute;dico Carlos Chagas, mas ela estava (e est&aacute;) presente em toda a Am&eacute;rica Latina, sendo comum nos espa&ccedil;os de resid&ecirc;ncias prec&aacute;rias e pr&oacute;ximas &agrave; mata. Ela n&atilde;o era completamente desconhecida, mas os cientistas tinham encontrado uma explica&ccedil;&atilde;o e o causador do mal que j&aacute; era conhecido, mas n&atilde;o muito claro para as popula&ccedil;&otilde;es antigas.<\/p>\n<p>Depois da descoberta do causador do mal de Chagas (que recebeu o nome de <em>Trypanosoma cruzi<\/em>), o Instituto Oswaldo Cruz incentivou diversas expedi&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas que passaram a cruzar o pa&iacute;s registrando e relatando aquilo que eles viam de problem&aacute;tico no sert&atilde;o brasileiro para sustentar o projeto de higieniza&ccedil;&atilde;o e moderniza&ccedil;&atilde;o do interior do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Goi&aacute;s foi singrado diversas vezes por viajantes. Alguns ilustres e afamados como August de Saint-Hilaire, que atravessa a prov&iacute;ncia de Goyaz no ano de 1847. Ele, como bom naturalista e um estudioso da sua &eacute;poca, olhava e registrava com muito interesse tudo o que via durante seus deslocamentos. Ao passar por terras goianas, registrou que as doen&ccedil;as mais comuns eram a morf&eacute;ia (que ele classifica como uma elefant&iacute;ase, mas hoje est&aacute; claro que &eacute; a doen&ccedil;a de Hansen) e hidropisia (um tipo de incha&ccedil;o do ventre que acomete quem tem, entre outras doen&ccedil;as, mal de Chagas). Tamb&eacute;m era comum, segundo outros viajantes, o &ldquo;mal de engasgo&rdquo;, que poderia estar associado com os incha&ccedil;os causados pela infesta&ccedil;&atilde;o de <em>Trypanosoma cruzi<\/em>, causador da Doen&ccedil;a de Chagas. Apesar desses relatos, os registros oficiais n&atilde;o faziam men&ccedil;&atilde;o mais aprofundada desses problemas, at&eacute; mesmo porque muito do que sabemos sobre doen&ccedil;as, suas causas, transmiss&atilde;o e tratamentos s&atilde;o conhecimentos mais recentes, surgidos depois dos estudos de toda uma legi&atilde;o de pesquisadores m&eacute;dicos nos primeiros anos do s&eacute;culo XX.<\/p>\n<p>Sob demanda do Instituto Oswaldo Cruz, Pedro Neiva e Belis&aacute;rio Penna fizeram uma expedi&ccedil;&atilde;o que atravessou o Brasil, passando por Bahia, Pernambuco, Piau&iacute; e Goi&aacute;s (incluindo o atual territ&oacute;rio tocantinense) buscando recolher informa&ccedil;&otilde;es sobre as condi&ccedil;&otilde;es de sa&uacute;de desse sert&atilde;o. E que retrato fazem esses pesquisadores! Na verdade, um retrato nada auspicioso para a imagem de terra salubre que pol&iacute;ticos e intelectuais queriam forjar para Goi&aacute;s. Neiva e Penna no seu relat&oacute;rio chegam a dizer que n&atilde;o exista vila ou cidade que n&atilde;o estivesse totalmente perdida pela idiotia, doen&ccedil;a e cretinice (este termo associado a debilidade mental). Segundo eles, entre Porto Nacional e a cidade de Goi&aacute;s existiam &ldquo;n&uacute;cleos de popula&ccedil;&atilde;o [com] desde 60 a 300 indiv&iacute;duos, na sua maioria idiotas, cretinizados, ou aleijados ou paral&iacute;ticos, percorremos n&oacute;s, onde dificilmente se deparava um semi-idiota capaz de dar algumas ligeiras informa&ccedil;&otilde;es. In&uacute;meros lugarejos onde 100% dos habitantes estavam atacados pelo terr&iacute;vel flagelo [o mal de Chagas] nas suas modalidades mais graves.<\/p>\n<p>No momento essa expedi&ccedil;&atilde;o, apesar de terem posi&ccedil;&otilde;es diametralmente opostas, tanto os m&eacute;dicos do Instituto Oswaldo Cruz e a comunidade cient&iacute;fica brasileira, que via Goi&aacute;s como um grande territ&oacute;rio doente e esperando interven&ccedil;&atilde;o, quanto a intelectualidade goiana, que propagava aos quatro ventos a imagem de Goi&aacute;s como sendo uma terra sem males, apesar de isolada, viam uma &uacute;nica possibilidade de transforma&ccedil;&atilde;o da realidade no &ldquo;estado mais central do pa&iacute;s&rdquo;: a transfer&ecirc;ncia da capital federal para o Planalto Central. Os m&eacute;dicos acreditavam que isso traria o saneamento e o controle efetivo dos vetores causadores de tantas doen&ccedil;as. Os pol&iacute;ticos e intelectuais goianos viam a possibilidade de inserir-se num novo mundo de rela&ccedil;&otilde;es, onde as din&acirc;micas sociais mudariam com a proximidade do poder central. Ambos entendiam que isso modernizaria o povo, visto como atrasado e arcaico.<\/p>\n<p>Ap&oacute;s a descoberta do agente causador da doen&ccedil;a, a despeito dos esfor&ccedil;os de Carlos Chagas e de outros m&eacute;dicos e pesquisadores, n&atilde;o houve a&ccedil;&otilde;es mais efetivas para o controle do vetor. A&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas contra o barbeiro, inseto que carrega o parasita, no Brasil v&atilde;o come&ccedil;ar efetivamente apenas nos anos 1960. Essas a&ccedil;&otilde;es estavam mais ligadas a melhorias nas moradias (como incentivar que se fa&ccedil;a reboco nas paredes e que se evite o uso do adobe na constru&ccedil;&atilde;o, por exemplo) e na elimina&ccedil;&atilde;o dos insetos vetores da doen&ccedil;a do que a&ccedil;&otilde;es medicamentosas. Assim a doen&ccedil;a, que na observa&ccedil;&atilde;o dos pesquisadores Neiva e Penna, afetava a maior parte da popula&ccedil;&atilde;o em Goi&aacute;s, foi satisfatoriamente controlada. Atualmente, a grande parte das mortes por Chagas s&atilde;o de pessoas com mais de 60 anos, o que indica que foram infectadas no passado e as novas infec&ccedil;&otilde;es se d&atilde;o por consumo de alimentos contaminados, como cana-de-a&ccedil;ucar in natura ou caldo e a&ccedil;a&iacute;. Pode n&atilde;o ser um cen&aacute;rio catastr&oacute;fico como os descritos em filmes e que est&aacute; gravado nas mem&oacute;rias sobre grandes epidemias, mas mesmo com todo o combate que se fez e faz contra o barbeiro, por ano o Brasil tem mais de 6000 mortes, e Goi&aacute;s conta com mais de 700 delas por ano em decorr&ecirc;ncia da doen&ccedil;a.<\/p>\n<p>Se atualmente estar em casa &eacute; uma a&ccedil;&atilde;o de cuidado com a sa&uacute;de, cuidar das condi&ccedil;&otilde;es da casa possibilita que n&atilde;o se fa&ccedil;a parte das estat&iacute;sticas dessa epidemia que o <em>Triponoma cruzi<\/em> causa. Que o nosso cora&ccedil;&atilde;o pode at&eacute; inchar, mas de orgulho e felicidade.<\/p>\n<p><em>Texto e pesquisa: Givaldo Corcinio\/ABC Digital<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pode n&atilde;o ser uma cena catastr&oacute;fica como aquelas gravadas nas mem&oacute;rias sobre grandes epidemias, mas a Doen&ccedil;a de Chagas &eacute; uma doen&ccedil;a que matou a muitos (e durante muito tempo) num engasgo<\/p>\n","protected":false},"author":249,"featured_media":14635,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-14724","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"rttpg_featured_image_url":{"full":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/MEMORIA_DE_MEDOS-2c0.jpeg",1280,720,false],"landscape":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/MEMORIA_DE_MEDOS-2c0.jpeg",1280,720,false],"portraits":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/MEMORIA_DE_MEDOS-2c0.jpeg",1280,720,false],"thumbnail":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/MEMORIA_DE_MEDOS-2c0-150x150.jpeg",150,150,true],"medium":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/MEMORIA_DE_MEDOS-2c0-300x169.jpeg",300,169,true],"large":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/MEMORIA_DE_MEDOS-2c0-1024x576.jpeg",1024,576,true],"1536x1536":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/MEMORIA_DE_MEDOS-2c0.jpeg",1280,720,false],"2048x2048":["https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/03\/MEMORIA_DE_MEDOS-2c0.jpeg",1280,720,false]},"rttpg_author":{"display_name":"alessandrobernardes","author_link":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/author\/alessandrobernardes\/"},"rttpg_comment":0,"rttpg_category":"<a href=\"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/categoria\/institucional\/noticias\/\" rel=\"category tag\">Not\u00edcias<\/a>","rttpg_excerpt":"Pode n&atilde;o ser uma cena catastr&oacute;fica como aquelas gravadas nas mem&oacute;rias sobre grandes epidemias, mas a Doen&ccedil;a de Chagas &eacute; uma doen&ccedil;a que matou a muitos (e durante muito tempo) num engasgo","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14724","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/users\/249"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14724"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14724\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14635"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14724"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14724"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/goias.gov.br\/abc\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14724"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}